Plataforma digital de comunicação multimédia para a promoção e divulgação do concelho de Alijó. Espaço cívico de debate, de informação, de opinião plural e de defesa dos interesses concelhios.

A eutanásia é um tema bem mais sério do que as ervas altas

Tenho vergonha da corrupção que grassa nas altas (e baixas) esferas do poder no meu país; tenho vergonha da, por vezes redundante, falibilidade da justiça; mas ainda me envergonho mais da tacanhez mental e da absoluta incompetência de quem toma decisões.

0 1.187
Ana Amorim Dias
+ artigos

O tema é complexo, tão complexo como a vida e, simultaneamente, tão merecedor de atenção como irrefutável é a certeza de vivermos a prazo incerto.

O problema está, como de costume, na gritante falta de preparação para a vida por parte dos decisores; o problema está na falta de intelecto, humanidade, coerência e tomates; está no excesso de zelo, de crenças, de medos e paradigmas que originam decisões assim, tão limitadas quanto limitantes.

O maior dos problemas é esse mesmo: esta gentalha que nos “governa”, esses alienados da realidade que, no alto do seu pedante desplante, crêem existir para ser servidos e se banquetearem com todas as mordomias, não entendendo que a sua função é trabalhar com seriedade em prol do bom funcionamento da sociedade. A humildade assiste-os tanto quanto a vontade de fazer melhor e a noção de que o poder, mais do que um motivo de crescimento do ego, deve aumentar sim o compromisso com a mais absoluta responsabilidade.

Tenho vergonha da corrupção que grassa nas altas (e baixas) esferas do poder no meu país; tenho vergonha da, por vezes redundante, falibilidade da justiça; mas ainda me envergonho mais da tacanhez mental e da absoluta incompetência de quem toma decisões.

Chumbar liminarmente a despenalização da eutanásia traz-me à memória uma decisão recente: multar quem, até 15 de Março, não tivesse as matas limpas nos seus terrenos. E a chuva? E o viço da primavera? Manteriam certamente tudo sem qualquer sombra de ervas e pastos até ao fim dos meses quentes, como é óbvio…

Ou seja; a ignorância é tão crassa e absoluta que qualquer criança se riria do insucesso a que estava fadado tal infantil decreto.

A eutanásia é um tema bem mais sério do que as ervas altas, claro que sim. Talvez daí a necessidade que sentem de enterrar a cabeça na areia e varrer o assunto para longe. Talvez nunca tenham de ver um ente querido num atroz sofrimento sem retorno. Talvez nunca passem eles próprios por isso. Talvez nunca venham a entender a humanidade contida no alívio do insuportável, do que não mais faz sentido. E talvez não seja legítimo esperar que entendam que a vida, sendo ou não mais do que isto, não merece ser vivida com tanto medo e aversão à morte.

Gostaria que os cérebros decisores pensassem um pouco mais seriamente nos assuntos em vez de continuarem a deixar-se espartilhar por velhos grilhões sociais; gostava que pudessem olhar para questões de fundo, como a morte assistida, sem a habitual descarada superficialidade; gostava que pudessem encarar a morte com o desassombro do inevitável e com o respeito que merece por ser parte integrante da vida; gostava que tentassem também sentir e empatizar, que procurassem testemunhos e casos reais e depois, em consciência, tomassem a decisão de chumbar ou não tal despenalização, sem medo de, de uma vez por todas, legislarem com pés e cabeça.

Comentários
Loading...