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A faceta africanista de Teixeira de Sousa, o “Transmontano Teimoso”

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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António Teixeira de Sousa nasceu em Celeirós, a 5 de Maio de 1857, filho do padre Dionísio Teixeira de Sousa, natural de Sanfins do Douro e, na época, a paroquiar naquela freguesia do concelho de Sabrosa.

Após completar os estudos liceais em Vila Real, diplomou-se em Medicina pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Macedo Pinto, destinado ao melhor aluno do curso.

Teixeira de Sousa iniciou a sua atividade profissional em Valpaços como cirurgião ajudante do Exército e foi diretor técnico das termas de Pedras Salgadas e de Vidago, no âmbito de cujas funções publicou dois trabalhos científicos: “Breve estudo filosófico, terapêutico e estatístico das águas das Pedras Salgadas” e “Memória sobre uma classificação das águas minero-medicinais”.

Com pouco mais de 30 anos, ingressou na política, tendo sido, sucessivamente, deputado, governador civil de Bragança, ministro de várias pastas, líder do Partido Regenerador e, finalmente, Presidente do Conselho de Ministros, entre 26 de junho e 5 de outubro de 1910.

Pelo caminho, foi Par do Reino, inspetor da Companhia dos Tabacos, diretor-geral das Alfândegas do Reino e governador do Banco Nacional Ultramarino.

Homem do Douro, Teixeira de Sousa bateu-se galhardamente pela sua região. Ficaram justamente famosas as suas intervenções em defesa do Douro tanto na câmara dos deputados como na câmara dos pares, nomeadamente aquela que produziu em 1907, defendendo, entre outras medidas, que os vinhos do Douro fossem exclusivamente exportados pela barra do Porto, única forma, segundo ele, de garantir a sua autenticidade. As propostas do conselheiro foram extraordinariamente bem acolhidas em toda a Região Demarcada, tendo sido, até, promovida uma campanha de recolha de fundos para a sua publicação e posterior distribuição gratuita pelos viticultores durienses.

Muitas vilas e cidades da Região, em reconhecimento ao seu esforço, atribuíram o seu nome a ruas, largos e praças, como é o caso, no nosso concelho, de Alijó, Favaios ou Sanfins do Douro, terra, de resto, onde viveu, casou e na qual está sepultado.

Teixeira de Sousa era um político combativo, de verbo agressivo e com uma vontade de ferro, atributos que lhe valeram o epíteto de “transmontano teimoso” de que ele, aliás, não desdenhava, gostando de se afirmar como “homem de trabalho e principalmente de ação”.

É voz comum, no entanto, que nem sempre a História dos povos e das nações faz a devida justiça às suas principais figuras. O conselheiro Teixeira de Sousa poderá ser um exemplo dessa asserção: homem íntegro, inteligente, político rigoroso, determinado e combativo, ficou injusta e negativamente marcado pela frágil resposta monárquica à revolução republicana de 5 de outubro de 1910. Daí o epíteto de “coveiro da monarquia” que haveria de o perseguir até ao fim dos seus dias.

Pretendo hoje, com este apontamento, dar a conhecer um aspeto que me parece menos conhecido na carreira política do conselheiro Teixeira de Sousa: entre 25 de junho de 1900 e 28 de fevereiro de 1903, no governo de Hintze Ribeiro, exerceu o cargo de Ministro da Marinha e do Ultramar, tendo tido uma ação preponderante, entre outras, na criação do Hospital Colonial, em Lisboa, na implementação do ensino de medicina tropical e na atribuição da concessão do Caminho de Ferro de Benguela, página apaixonante da história de Angola e de Africa, de que foi o grande impulsionador.

O traçado desta via, ligando a cidade de Lobito, junto à costa atlântica, a, em sua homenagem, Vila Teixeira de Sousa, atual Luau, junto à fronteira com a República Democrática do Congo, numa extensão de 1344 quilómetros, sofreu percalços de vária ordem, desde a indecisão quanto ao traçado à falta de verbas, com as habituais e portuguesíssimas tricas políticas de permeio.

Como em todas as coisas efetivamente grandes – ligar o litoral de Angola à fronteira era, na realidade, para a época, tal como ainda hoje o seria, uma coisa absolutamente extraordinária – o insólito teve o seu quê de fundamental:

Tinha sido aberto concurso para a concessão da ligação entre Benguela e Monte Sahoa quando o marquês de Soveral, abordando Teixeira de Sousa, lhe apresentou o engenheiro escocês Robert Williams, que desejava a concessão, não apenas daquele troço, mas de todo o traçado entre o Lobito e a fronteira do Congo e sem quaisquer contrapartidas!

Como bom transmontano que era, estranhou Teixeira de Sousa tanta prodigalidade, pensando tratar-se de mais um aventureiro sem escrúpulos. Mais para se ver livre dele do que, propriamente, acreditando na seriedade da proposta, foi dizendo que tal concessão apenas poderia ser considerada mediante determinadas garantias. Para demonstrar a sua boa-fé, quis saber o escocês qual o montante pretendido.

– Cem mil libras esterlinas – respondeu Teixeira de Sousa, seguro de que, perante uma importância de tal magnitude, Robert Williams, se fosse realmente um simples aventureiro, desistiria da pretensão.

Poucos dias depois, de Londres, Teixeira de Sousa era informado da concretização de um depósito do montante pedido. A Concessão Williams, como ficou conhecida, foi celebrada entre o Governo Português, representado pelo ministro da Marinha e do Ultramar e sir Robert Williams, por um período de 99 anos. O Comboio chegou à última estação em território angolano, Vila Teixeira de Sousa, em 1929.

Teixeira de Sousa faleceu no Porto a 5 de junho de 1917. O cortejo fúnebre, constituído por milhares de pessoas, saiu para Sanfins do Douro, em cujo cemitério foi sepultado. No último dia 5 de junho, completaram-se 100 anos sobre o seu óbito. Não vi, talvez por distração minha, uma única palavra ou qualquer referência à efeméride. Sabrosa, concelho da sua naturalidade e Alijó, chão onde repousa, não merecem o Homem e o Estadista que foi António Teixeira de Sousa.

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