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A paróquia de Santa Maria de Sanfins em 1795

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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D. Frei Caetano Brandão tomou posse como arcebispo titular da Arquidiocese de Braga no dia 28 de junho de 1790. Com o intuito de promover o culto divino, a exata administração dos sacramentos e a necessária reforma dos costumes do clero, logo em abril de 1790 concretizou a primeira visita a Trás-os-Montes, província a que se deslocaria em mais quatro ocasiões, visitando localidades que há mais de oitenta anos não viam o seu prelado!

Embora o seu zelo apostólico e a sua vontade fossem visitar pessoal e amiudadamente todas as paróquias, a grande extensão da arquidiocese, o mau estado ou inexistência de acessos que possibilitassem o desejado “varejamento”, a “calidez” do território e a debilidade física do próprio arcebispo, não lhe permitiam concretizar essa aspiração, não obstante ter realizado treze visitas pastorais ao longo dos apenas quinze anos à frente dos destinos da metrópole bracarense.

 

A certa altura, verificando não poder levar, de viva voz, a palavra às paróquias mais distantes, decidiu nomear visitadores que o fizessem em seu nome. Foi este o caso do padre Domingos José de Paredes, nomeado visitador para a primeira parte da comarca de Vila Real, em abril de 1795.

É com base no relatório da visita efetuada por Domingos José de Paredes à Paróquia de Santa Maria de Sanfins, publicado por Fernando de Sousa, no já longínquo ano de 1976 e por mim próprio replicado, em 1985, na “Monografia de Sanfins do Douro”, que vos apresento o presente trabalho, sem outra ambição que não seja, mais uma vez, divulgar aspetos desconhecidos da história local e humanizar, neste caso em particular, um casarão em ruinas, espaço privilegiado da maior parte dos sucessos que passo a relatar:

Sanfins do Douro, em 1758, era abadia de concurso ordinário com um rendimento que ascendia aos catorze mil cruzados. Tinha 295 fogos e 902 pessoas de sacramentos mais 83 menores de confissão. Na residência paroquial moravam treze sacerdotes, cinco ordinandos e dois pretendentes ao sacerdócio, um deles com apenas 10 anos de idade.

O quadro que se segue, apresentando os nomes, as idades, as habilitações e o zelo de cada um dos sacerdotes residentes, atesta, de forma sucinta, a imagem com que o visitador deles ficou e a avaliação que deles fez e transmitiu ao arcebispo:

 

Passando à análise um pouco mais detalhada do comportamento e hábitos de cada um deles verificamos que:

O abade apenas o era para se utilizar dos proveitos do benefício: não confessava, não dizia missa e não prestava serviço algum na paróquia, pouco tempo nela residindo, já que fazia vida na cidade do Porto onde, de resto, se encontrava na altura da visita. O seu desinteresse pelo destino da paróquia que lhe incumbia governar chegou ao ponto de ter que pedir paramentos emprestados para que o arcebispo se pudesse paramentar quando aqui esteve em vista pastoral.

O cura, por sua vez, deixava viver os fregueses à sua vontade. Era ganancioso, levando dinheiro a mais pelas certidões que passava. Gostava muito de frequentar casas onde houvesse senhoras e dava-se um tanto à bebida, sobretudo da parte da tarde, chegando mesmo a toldar-se. Pela sua pouca idade e pelo seu comportamento, os fregueses não lhe tinham qualquer respeito.

O padre António Vilela tinha mau procedimento com várias mulheres, entre as quais a Ana Paninhas, que o catava à frente de toda a gente e com o consentimento do marido. Negociava em vinhos, comprando os mais baratos para os vender mais caros. Este sacerdote já tinha sido penitenciado com dez dias de exercícios espirituais, mas em vão. O visitador era de opinião de que deveria ser chamado, mais uma vez, à presença do arcebispo para ser admoestado.

Quanto ao padre António Monteiro, já parira dele uma sua conterrânea de Cova de Lobos. Era visitado, de noite, por algumas mulheres não se provando, no entanto, se elas frequentavam a residência por sua causa ou por causa dos criados do abade de quem era administrador.

O reverendo António Rodrigues Vilela exercia um tal fascínio sobre as mulheres que lhes era difícil resistir-lhe, razão pela qual os seus costumes tinham sido abomináveis: tinha vivido amancebado com duas mulheres de Sanfins com uma das quais tivera um filho; viveu maritalmente com uma mulher de Agrelos que roubou ao seu marido, viveu incestuosamente com uma sua prima e comadre, natural de Cova de Lobos, de quem teve outro filho e a quem espancou, de nada lhe valendo os sucessivos exercícios espirituais a que amiudadamente era sujeito, reincidindo permanentemente na sua devassidão.

O padre António Costa, além de abandonar o hábito eclesiástico e demonstrar pouco zelo, mantinha relações muito duvidosas com duas mulheres de Sanfins, tendo sido admoestado pelo seu comportamento.

O reverendo Boaventura de Sousa foi a figura mais célebre, pela negativa, de toda a visita, parecendo já completamente desamparado por Deus: era alcoólico, adúltero, devasso, violento e ladrão, parecendo possuir todas as qualidades repreensíveis e abomináveis, que, de resto, toda a paróquia conhecia e reprovava. Este clérigo já havia sido repreendido nas visitas de 1786 e de 1783 e obrigado a realizar exercícios na casa da Cruz, sem qualquer resultado.

O padre Francisco Pinto pregava sem autorização e dava muita assistência a uma rapariga solteira a quem procurava, acenava e rodeava a casa, com a aquiescência dela, que aceitava e favorecia os seus avanços.

O padre Joaquim Barros teve uma filha na paróquia de Freixiel e andava, agora, muito próximo de uma tal Francisca, não se confirmando, todavia, mau procedimento.

O reverendo José Malheiro tinha bons costumes mas não se coibia de negociar em vinhos, tanto diretamente como por interposta pessoa.

O padre Joaquim Pinto era mal procedido, mas sem manter uma relação em especial: era com quem tivesse ocasião.

O reverendo Manoel Alvarez era sobretudo um fazendeiro ambicioso em cujos terrenos ele próprio regava os milhos. Era mulherengo e muito mal procedido mas, ao tempo da visita, não constava que tivesse qualquer relação.

Na realidade, para José Domingos de Paredes, apenas os padres António Teixeira Malheiro, Joaquim Costa e o vigário de Vilarinho de Cotas eram homens sérios e honestos no procedimento mas apenas o primeiro poderia passar “por bom eclesiástico”!

Se o comportamento global dos sacerdotes deixava muitíssimo a desejar, os augúrios eram relativamente menos sombrios com os cinco ordinandos já que, embora quatro deles escrevessem mediocremente e fossem pouco instruídos, a maioria frequentava os sacramentos e revelava alguns sinais positivos de vocação. Apenas um deles, Bernardo Lopes, tinha fama de mal procedido com uma sua prima com quem, aliás, afirmava querer casar.

Relativamente aos pretendentes, um era jogador, casquilho e leviano e o outro, muito mais novo, ainda não tinha dado mostras daquilo que seria capaz.

Perante tudo isto e como um “fraco rei fraca faz a forte gente”, o clero era muito relaxado e o povo nada tinha de bom, nele reinando a bebedice e a luxúria. Esta visão pouco positiva dos sanfinense do século XVIII é compartilhada por Pinho Leal que no seu “Portugal Antigo e Moderno” diz: “… sendo a [freguesia] de Sanfins a mais populosa e hoje absolutamente a mais rica d’este concelho e d’esta comarca, pois conta com cerca de 540 fogos com 2:400 habitantes; – colhe muito azeite, muitos cereais e batatas, e ainda no último anno produziu cerca de 2:000 pipas de vinho – mais vinho do que nenhuma das freguesias de ambas as margens do Alto Douro!… Os seus habitantes vivem sem fausto, são muito laboriosos, muito trabalhadores e de há muito de pelle diabi – a gente mais desordeira de todo o Alto Douro!…

Perante o visitador, no entanto, este povo alcoólico, descristianizado e desordeiro compungiu-se de tal ordem quando chamado à razão que o próprio José Domingos de Paredes achou que “se lhe fizesse uma missão, seria frutífera”. Uma missão em terra cristã do Norte de Portugal, da cristianíssima arquidiocese de Braga?! É obra!

Perante a situação descrita, nada admira o número de culpados na devassa empreendida: “Nesta culpei vinte e duas pessoas em cujo número foram compreendidos alguns eclesiásticos; e um secular, por incesto, com duas cunhadas ele, irmãs uma da outra.”

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