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A propósito das moedas romanas de Sanfins do Douro recentemente recuperadas

Quanto à última descoberta conhecida, ela ocorreu efetivamente no ano de 1958, quando se procedia a trabalhos de arranque e de mato e construção de muros para ajardinamento dos patamares adjacentes ao adro principal do santuário: 62 denários e 1 quinário que a sensibilidade e interesse do padre Manuel Plácido pelas coisas da História permitiram salvar

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Não tendo sido meu propósito interferir na questão das moedas roubadas da ermida de Nossa Senhora da Piedade em 1985, o facto de, nos últimos dias, ter sido contactado por alguns órgãos de comunicação social para me pronunciar sobre o assunto, logo eu que não sou especialista em coisa nenhuma, força-me a enquadrar a questão do furto no seu contexto histórico-territorial.

Comecemos pelo território:
O espaço físico onde hoje se situa a ermida de Nossa Senhora da Piedade foi outrora ocupado por um castro romano que o “Arqueólogo Português” de 1895, refere como “obra grande no tempo antigo”, apresentando, naquela época, muros “de onze e doze palmos de alto”, muralha “de nove ou dez palmos” de largura e muros “em circuito” ocupando “meio quarto de légua”. Este enorme castro, conhecido na época como Castelo de Santa Margarida, foi, para ser simpático, desmantelado, e a sua pedra foi reutilizada na construção dos muros de acesso e dependências do atual Santuário. O castro romano já não existe fisicamente mas não desapareceu de todo: curiosamente, a zona alta de Sanfins do Douro mais próxima da ermida, tem ainda, sem que a maioria dos sanfinense perceba a razão, o nome genérico de Castelo!

Passemos às moedas:
O abade de Sanfins do Douro de 1758, nas suas “Memórias Paroquiais”, dizia que, nas imediações do castro, juntamente com muitos tijolos lavrados, costumavam aparecer “muitas medalhas de cobre”. O “Arqueólogo Português” de 1895 referia que ali “tinham aparecido algumas medalhas de prata que pela inscrição tinham César Augusto”. Ainda de 1895, é interessante a alusão de um manuscrito anónimo ao mesmo tema, mas ocorrido duzentos anos antes: “Foi começado o edifício [construção da capela de Santa Bárbara, atual capela de Nossa Senhora da Piedade] por um pequeno número de pedreiros que não o acabaram por acharem um haver na terra onde andavam a fazer os alicerces ou cortar a pedra, e como se julgassem felizes em o acharem abandonaram a obra e ausentaram-se, vindo a ser acabado de fazer por outro pequeno número, no ano de 1646…”.

Mais tarde, A. A. A. de Sousa, no livro “A Vida e Factos Miraculosos do Servo de Deus Sebastião Maria”, de novo se refere ao aparecimento de moedas afirmando, nomeadamente, que, quando “andavam fazendo escavações para os alicerces da quarta capela, ali encontraram algumas moedas romanas antiquíssimas.” Mais recentemente ainda, o escultor Maurício Penha, num testemunho escrito que me disponibilizou para a elaboração da “Monografia de Sanfins do Douro”, volta a referir-se ao assunto, o que demonstra que o aparecimento de moedas romanas no monte da ermida, se não é vulgar, também não é tão invulgar assim!…

Quanto à última descoberta conhecida, ela ocorreu efetivamente no ano de 1958, quando se procedia a trabalhos de arranque e de mato e construção de muros para ajardinamento dos patamares adjacentes ao adro principal do santuário: 62 denários e 1 quinário que a sensibilidade e interesse do padre Manuel Plácido pelas coisas da História permitiram salvar, ao contrário de outras moedas anteriormente encontradas e cujo rasto se perdeu para sempre. O padre Plácido, com efeito, ao publicar aspetos do tesouro no jornal “A Voz de Trás-os-Montes”, no ano de 1959, divulgou o achado e, ao torna-lo público, impediu que ele se desmembrasse e, no fundo, acabasse por desaparecer. Forneceu, por outro lado, informações relevantíssimas ao dr. Rui Centeno que procedeu à catalogação das moedas e a cujo interesse se deve a recuperação da parcela do tesouro agora recuperado.

O tesouro foi, posteriormente, exposto numa mesa para o efeito colocada na Sala dos Milagres do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, protegido por uma tampa de vidro, a fim de evitar o manuseamento ou desvio das moedas. Apesar de todo o esforço de preservação, quando, em 1983, o dr. Rui Centeno fotografou as moedas, já tinham desaparecido 5 denários e um deles manifestava características distintas dos restantes, não pertencendo claramente ao conjunto inicial.

Perante tudo isto, não surpreendeu que, em 1985, o tesouro tenha sido roubado. Foram, agora, graças ao esforço do dr. Rui Centeno, e ao trabalho da Polícia Judiciária, recuperadas dez moedas, entre elas a joia da coroa, um denário cunhado durante a guerra civil do império romano, com um preço base de licitação para o frustrado leilão cujo catálogo esteve na base da sua recuperação, de sete mil euros!

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