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A tradição das Maias

Rituais ancestrais que continuamos a festejar, mas que muitos desconhecem! Com o passar do tempo, foram adaptados, mediante crenças e religiões

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Luísa Teixeira

Natural da Póvoa do Douro. Escritora

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O início da primavera é um dos momentos mais importantes no que diz respeito ao renascimento da Natureza, um novo ciclo, sendo a sua chegada momento de grande alegria e comemoração.

Festejos esses, que dão lugar aos rituais da primavera, ligados à Deusa Mãe-Natureza, a ela, eram dirigidos pedidos de proteção, agradecimentos e oferendas, celebrando-se assim a fertilidade, o começo de um novo ano agrícola e o adivinhar de boas colheitas.

Rituais ancestrais que continuamos a festejar, mas que muitos desconhecem! Com o passar do tempo, foram adaptados, mediante crenças e religiões.

Infelizmente, muitos desapareceram, bem como os sítios onde tais práticas tinham lugar, perdendo-se para sempre parte do conhecimento sobre as crenças, ritos e costumes do nosso passado.

Uma das festividades da primavera, que ainda se mantém em algumas regiões é o ritual das “Maias”, nome pelo qual são conhecidas popularmente as giestas amarelas, por florirem no mês de maio. A sua origem primitiva e o seu verdadeiro significado foram-se alterando com o tempo, adotada pelo paganismo e mais tarde pelo Cristianismo que ligou tal momento à Festa da Santa Cruz e ao Corpo de Deus.

Existem diferentes versões sobre a origem das Festas das “Maias” na Península Ibérica, entre elas, a sua ligação à antiga festividade Celta, Beltane, que comemorava o início do verão. Atribuem igualmente aos Romanos tal costume, que celebravam as Florálias e cultuavam a Flora, Deusa das flores e da primavera, em sua honra, durante três dias realizavam os jogos florais. Referem também, a influência egípcia e que terá chegado através do povo árabe.

Essas lindas flores silvestres que pintam de amarelo as serras, planaltos e planícies, são fonte de grande simbolismo, que ao longo dos tempos foram utilizadas para distintos fins.
Existem muitas e distintas narrativas por todo o país sobre a tradição das “Maias”, sendo em tempos comemorada de diversas formas em algumas regiões.

Segundo os mais velhos da minha aldeia, a tradição está associada à religião cristã. Contam que quando a Virgem Maria partiu para o Egipto, utilizou giestas amarelas para assinalar o caminho, de forma a não se perder no seu regresso.

Uma outra versão, segundo eles, está relacionada com os Judeus, quando estes procuravam Jesus para o prenderem. A forma utilizada pelos malfeitores, para saberem onde ele se havia escondido, foi colocar uma giesta amarela na fechadura. Mas um grande milagre aconteceu, na manhã seguinte todas as portas tinham giestas amarelas, levando a que não encontrassem Jesus.

Na Póvoa do Douro, minha terra natal, essa florida tradição permanece viva. No dia 30 de Abril, vamos aos montes apanhar giestas amarelas. Com a mão e por vezes auxiliados de tesouras da poda ou por outro instrumento cortante, cortamos diversos ramos floridos.

Outrora, quando as gentes da terra regressavam ao final do dia do campo, carregavam nos seus braços ou transportavam nas albardas, nas carroças e nos carros de bois essas belas flores. Viam-se também a chegar à aldeia algumas mulheres com os molhos amarelos sobre cabeça.

Atualmente os meios de transporte são outros, mas os gestos mantiveram-se, continuando-se a viver com entusiasmo o colocar dos raminhos amarelos, momento partilhado pelas diversas gerações. Um ou dois ramalhetes de “Maias” são postos em todas as portas, janelas da casa, nos galinheiros, nos estábulos, armazéns, máquinas agrícolas, carros…, até nas casas desabitadas, os vizinhos fazem questão de colocar.

Tudo fica enfeitado, para que no dia 1 de Maio, a fome, o mau-olhado, doenças, os espíritos maus, as bruxas, o diabo e todas as coisas ruins associadas a tal personagem demoníaca não atinja os lares, animais e a aldeia.

O seu doce aroma espalha-se pela povoação, já para não falar no lindo jardim em que se transformam as ruas, pintadas de amarelo, o gesto simbólico repete-se ano após ano, saudando-se assim, a chegada da Primavera e perpetuando-se as tradições ancestrais.

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