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A vindima do Douro

O dia começa cedo, os trabalhadores reúnem-se na praça, terreiro ou em outro lugar da aldeia ou vila, aguardando pelas carrinhas que os levarão para as vinhas. Chegados ao terreno, o caseiro ou encarregado, informa-os sobre onde começarem a vindimar. Os cestos, baldões ou caixas são espalhadas pelos bardos.

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Luísa Teixeira

Natural da Póvoa do Douro. Escritora

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Com a chegada do mês de Setembro, iniciam-se os preparativos para a vindima.

A colheita de um longo ano de trabalho árduo é o momento mais aguardado pelos viticultores. Pois a incerteza de colher o seu fruto é constante, tudo depende da Mãe- Natureza.

A vindima é sinónimo de convívio, alegria e azáfama!

Preparam-se os cestos, baldões, caixas, tesouras, baldes, lagares…

O dia começa cedo, os trabalhadores reúnem-se na praça, terreiro ou em outro lugar da aldeia ou vila, aguardando pelas carrinhas que os levarão para as vinhas.

Chegados ao terreno, o caseiro ou encarregado, informa-os sobre onde começarem a vindimar. Os cestos, baldões ou caixas são espalhadas pelos bardos.

O som das tesouras e dos primeiros cachos a cair nos baldes anunciam o início da vindima.

Após alguns minutos, ouve-se: – Balde!

Sinal que o recipiente está cheio, rapidamente se apressam a despejá-lo.

Outrora, gritava-se: “ (…) – Cesta cheia! E lá vinham os rapazes muito atarefados despejar nos cestos vindimos, feitos de madeira de Castanho. (…) Os carregadores era o nome que se dava aos homens que carregavam os cestos vindimos. Quando colocados nas costas, assentavam em cima de uma trouxa (…) com auxílio de um cajado começavam a subir os socalcos (…) Levavam os cestos cheios por longas distâncias, sendo acompanhados por um indivíduo a tocar realejo. Faziam algumas paragens que se chamavam pousas” (Teixeira, 2016:70-72).

“Na vinha os trabalhadores cantavam músicas, acompanhadas por um realejo e concertina (…) andava também um senhor com um pipo pequenino a oferecer água-pé” (Teixeira, 2016:73).

A chegada das senhoras com os cestos sobre a cabeça anunciava a hora do almoço, ao qual chamamos de pequeno-almoço. Nas tijelas serviam a refeição confecionada ò lume nos potes de ferro, batatas, massa ou arroz com uma pequena posta. O mesmo sucedia com o jantar, conhecido por almoço. Que comida deliciosa!

“Nos grandes armazéns havia lagares e muita gente a pisar uvas, acompanhados também por realejo e concertina. Ao pisarem diziam em voz alta: – Esquerdo, direito, um, dois (…) Dentro dos lagares faziam-se alguns jogos, cabra cega, jogo da palmada (…) Muitos dos que andavam durante o dia a carregar os cestos, iam há noite, pisar uvas durante quatro horas, dizia-se que iam dar a meia-noite” (Teixeira, 2016:74-75). Atualmente tal atividade ainda se mantém.

Com o passar do tempo, perderam-se alguns hábitos, no entanto, outros mantiveram-se, como a tradição da entrega do ramo no final da vindima “ (…) um grande ramo com várias flores, ramo de videira e cachos de uvas para os patrões e para os caseiros. Ao mesmo tempo que entregavam o ramo cantavam versos muito bonitos. Os patrões retribuíam com as filhoses. Depois de terminar a vindima, os homens e as mulheres lavavam os cestos e latas” (Teixeira, 2016:79-81).

O espreitar o passado leva a que recordemos com saudade a vindima de outrora, apesar da dureza e esforço. Felizmente, muitos sítios tentam recriá-la e transmitir o ambiente que se vivia nessa época.

Não podemos esquecer, que é o momento mais importante para a região, há que vivê-lo com alegria e entusiasmo, apesar das intempéries e doenças que atingiram as nossas videiras no presente ano.

 

Referência:

TEIXEIRA, L. (2016). Um Trio à descoberta no Alto Douro Vinhateiro. Lisboa: Edições Vieira da Silva.

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