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Anta da Fonte Coberta

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Manuel Carlos Figueiredo

Natural de Favaios. Historiador

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A anta da Fonte Coberta encontra-se implantada numa chã planáltica nas proximidades de Vila Chã, num terreno granítico com pinhal, apresentando um posicionamento isolado na paisagem envolvente.

Embora apareça isolada na paisagem, supõe-se que a anta da Fonte Coberta faria parte de um agrupamento maior de dólmens. Actualmente enquadra-se num conjunto de monumentos do género existentes na região. De facto, o território do concelho de Alijó é muito rico em monumentos megalíticos que se situam a norte da serra do Vilarelho: no Campo Meão/Vilarelho, em Vila Chã, na área de Perafita e na serra da Burneira.

A anta da Fonte Coberta é um monumento de médias dimensões, com vestíbulo. Este tipo de dólmen com vestíbulo é raro na região, mas encontra-se com frequência em certas zonas do sul do país, particularmente em Reguengos de Monsaraz.

Trata-se de um dólmen que se destaca na arte megalítica do norte do país, sendo dos mais conhecidos e apreciados.

Oliveira Jorge, ao referir-se aos monumentos megalíticos do concelho de Alijó, diz que a anta da Fonte Coberta é o “monumento mais célebre”, tratando-se de “…um dólmen com câmara poligonal de sete esteios imbricados … coberta por uma câmara de grandes dimensões (…) um pequeno vestíbulo que marcava o acesso à câmara …” (1982, 459-460).

Esta anta encontra-se referenciada desde os finais do século XIX, tendo sido objecto de alguma pesquisa efectuada pelos investigadores Henrique Botelho, em 1896, e J. M. Cotelo Neiva, em 1938.

Apesar de classificada como monumento nacional em 1910 (Decreto de 16.6.1910, DG n.º 136 de 23.06.1910), na década de 80 foi “profundamente revolvida no interior do vestíbulo e área fronteira”, tratando-se de um revolvimento clandestino mas “denotando método científico” (Carvalho e Gomes 2000, 20). Henrique Botelho, no fim do século XIX, já referia que a anta tinha sido “devassada e explorada pelos lavradores com o fim de encontrar tesouros encantados“ (1896).

Dado o estado de abandono em que o monumento se encontrava, o Município de Alijó teve a iniciativa de mandar fazer uma intervenção por uma equipa de arqueólogos. Esta acção de estudo e restauro decorreu nos meses de Julho a Setembro de 1997.

Não existem estudos que permitam indicar a data da construção da anta da Fonte Coberta, mas existe informação sobre outras localizadas em áreas próximas e que já foram estudadas e datadas.

A mamoa 1 de Madorras (Sabrosa) e a mamoa d’Alagoa (Murça) datam do segundo quartel do IV milénio a.C. e a Mamoa 1 do Castelo (Murça) foi construída na 1ª metade do IV milénio a. C., pois foram datadas pelo radiocarbono. A anta da Fonte Coberta deverá datar do mesmo período, considerando os artefactos aí encontrados, que, provavelmente, resultam de oferendas funerárias (Sanches e Nunes 2005, 62).

Os arqueólogos que procederam ao estudo e restauro datam as deposições funerárias do “último quartel do IV milénio a. C. ou na transição deste para o III milénio a. C.” (Carvalho e Gomes 2000, 45).

Segundo M. J. Sanches, os monumentos megalíticos começam a ser erigidos na região na passagem do V ao IV milénio a.C., quando se inicia “no Norte de Portugal o processo de construção de monumentos sob tumuli, maioritariamente providos de estruturas megalíticas internas – os conhecidos dólmens” (1996, p. 33).

Os tumulus ou mamoas são montículos em terra, em terra e pedras, ou só pedras, que cobriam a estrutura megalítica. Serviam para proteger e escorar o dólmen e conferiam-lhe a sua “verdadeira monumentalidade” (Jorge 1982, Vol I, 24-25).

Quando estes monumentos começaram a ser construídos decorria o processo de neolitização do território de Trás-os-Montes e Alto Douro, com a prática da agricultura e pastorícia. Mas na passagem do VI ao V milénio a. C. já existiam comunidades neolíticas na região, que praticavam o cultivo de cereais (trigo e cevada) e leguminosas (fava) e, provavelmente, a domesticação de ovinos e/ou caprinos (Sanches 2003, 159-160). A agricultura e a pastorícia eram certamente complementadas com a apanha (bolota, medronho, avelã e pinhão) e a caça.

Passava-se da economia de predação praticada no Paleolítico, assente na caça e na recolecção, à economia produtora do Neolítico, baseada na agricultura e na pastorícia. Mas esta mudança foi muito lenta. Segundo M. J. Sanches o “processo de transformação dos modos subsistência baseados na caça-recolecção, para a dominante agricultura-pastorícia” foi atingido apenas no final do IV/inícios do III milénio a. C. (2003, 171).

Porém, a presença dos antepassados do Homem na região de Trás-os-Montes e Alto Douro é mais remota. Recentemente uma equipa de arqueólogos encontrou vestígios do Homem de Neandertal (Homo sapiens neanderthalensis) 1, com mais de 70 mil anos, em escavações feitas numa das margens do rio Côa. Esta descoberta mostra que este antepassado do homem habitou o Vale do Côa ainda antes da época da arte rupestre que aí se encontrou (Lusa 2017).

É, pois, provável que o Homem de Neandertal tenha povoado outros locais na região, nomeadamente na outra banda do rio Douro, onde também se encontraram gravuras e pinturas rupestres.

No Paleolítico Superior, o Homem Moderno (Homo sapiens sapiens) deixou testemunhos em Mazouco e noutras estações com arte rupestre localizadas na região de Trás-os-Montes e Alto Douro. Os investigadores admitem ainda que tenha existido continuidade de povoamento na região entre o Paleolítico Superior e o Neolítico Antigo.

As antas tinham simultaneamente a função de túmulos e de locais sagrados, onde se praticavam enterramentos e rituais, se realizavam um conjunto de cerimónias religiosas relacionadas com o culto dos mortos. São monumentos que expressam as crenças das comunidades neolíticas.

Com efeito, Oliveira Jorge diz que “…os monumentos megalíticos não eram apenas sepulcros, mas também locais de culto, polos de actividade simbólico-religiosa” (1982, 847).

A monumentalidade das mamoas e a posição destacada que ocupavam na paisagem, confere-lhes um simbolismo que segundo aquele autor ”…não pode deixar de ter tido uma conotação religiosa, tratando-se de locais funerários que (…) apresentam sinais de terem servido como enquadramento de rituais” (1982, 848).

O simbolismo também se manifesta na articulação dos monumentos com a topografia da área envolvente. Admite-se que o posicionamento da anta da Fonte Coberta tenha igualmente o sentido de hierarquizar o espaço físico envolvente. (Sanches e Nunes 2005, 68).

Segundo M. J. Sanches as comunidades que construíram as antas viviam em povoados de curta duração (10-15 anos), pois devido ao esgotamento das terras à volta deslocar-se-iam para zonas afastadas dos seus túmulos, em busca de terras virgens. Para estas comunidades que se moviam adentro de um determinado território o monumento era “…o eixo fixo de ligação a uma área, a marca de posse ”. Funcionava ainda como meio de comunicação com o exterior porque “tanto se vê de longe, como é visto” (1999, 55).

Oliveira Jorge também refere que as antas têm um sentido de territorialidade, pois quando a terra e os recursos começam a ser disputados por comunidades cada vez mais numerosas, surge a necessidade de marcar o seu espaço próprio, organizado à volta dos seus antepassados (1982, 150).

Desta forma, o monumento era indicador da importância das relações de parentesco na vida das comunidades, já que aí “estavam enterrados os antepassados que são afinal a essência ou identidade de cada grupo” (Sanches 1999, 56).

As crenças dos construtores de antas manifestam-se igualmente no espólio funerário que, como já se referiu, deveria relacionar-se com deposições funerárias. Na acção de restauro da anta da Fonte Coberta encontraram-se diversos artefactos como machados de pedra polida, fragmentos de cerâmica, pontos de seta, lâminas, micrólitos contas de colar, uma pequena placa em xisto (Carvalho e Gomes 2000, 45), que acompanhariam os mortos e fariam, em vida, parte do seu mobiliário.

Os arqueólogos que efectuaram o restauro referem que anta apresenta várias gravuras e pinturas em alguns esteios da câmara e na laje de cobertura. As gravuras são constituídas por covinhas e sulcos. As pinturas, de “cor vinosa”, serão restos de um painel e “representarão dois motivos distintos”. As pinturas terão sido executadas “num todo” e terão “uma conotação religiosa/simbólica”.

Relatam ainda que uma das pinturas foi interpretada como sendo a “… representação de um antropomorfo «com um pénis muito desenvolvido» …”(Carvalho e Gomes 2000, 35-36). No âmbito da interpretação da arte megalítica o tema representado poderá ter um significado idêntico ao do menir que, pela sua forma fálica, é uma manifestação do culto da fertilidade da terra e dos animais.

Na opinião de M. J. Sanches, “a vida destas comunidades funde o sagrado e o profano.” As antas eram locais de culto mas também lugares de encontro, de contacto entre grupos vizinhos, de trocas de informações, de produtos, de técnicas e “mesmo de mulheres”. Funcionariam como as romarias tradicionais que têm como centro a capela ou a igreja, onde se realizam as cerimónias religiosas, mas são também locais de troca, muitas vezes feiras, onde se acertam negócios e se estabelecem contactos (1999, 54).

A anta da Fonte Coberta funcionaria como polo aglutinador de comunidades vizinhas, onde decorreriam cerimónias religiosas a par de outras laicas, se reforçavam os laços de vizinhança e desenvolveriam elementos de identidade.

A construção das antas ocupava membros da comunidade que eram desviados da produção de alimentos e da caça/pastorícia, o que mostra a existência de comunidades que aplicavam parte dos seus excedentes em actividades funerário-religiosas.

Admite-se que nem todas as comunidades construíram monumentos com tumulus e a construção de monumentos megalíticos deveria ser um acto de excepção na vida comunitária, que na necrópole da Aboboreira, Baião, terá ocorrido apenas uma vez em cada duas gerações (Sanches 2000, 135). Assinale-se que a esperança de vida nas sociedades neolíticas seria de cerca de trinta e um anos, à volta de vinte e nove anos para as mulheres e trinta e três anos para os homens. Apenas cerca de dois por cento da população atingia os cinquenta anos (Sanches 2000, 130).

As comunidades neolíticas ligadas à anta da Fonte Coberta viveram num lugar que conheciam bem, ao qual deram um nome que desconhecemos, ao qual se ligaram de diversas formas e cujo modo de vida conhecemos escassamente.

Essas comunidades deixaram testemunhos das suas crenças religiosas, do seu culto às forças da Natureza, associado à fertilidade da terra e à reprodução do Homem e dos animais. Mas decorridos cinco mil anos não continua ainda o Homem a questionar-se sobre a origem da vida e o sentido da sua existência na infinidade do(s) Universo(s)?

As comunidades neolíticas associadas à anta da Fonte Coberta deixaram-nos um testemunho precioso que devemos respeitar e dignificar, empenhando-nos todos na sua preservação e valorização.

A Lenda
Existe uma lenda muito bonita sobre a Anta de Fonte Coberta. Segundo a tradição popular existiu um povo de Mouros no lugar designado Fonte Coberta, que deixou o seu vestígio numa anta. Diz a lenda:
Conta-se que uma jovem moura casou por amor contra a vontade do seu pai, um rei mouro. E, por isso, pagou caro a sua desobediência, sendo obrigada a trabalhar para sustento da sua família e a construir, sozinha, a sua casa. Foi ela que carregou as pedras da anta à cabeça e ao colo levava o seu filho ainda bebé. Diz-se que, em noites de luar, ainda há quem ouça os ais da jovem moura a carregar enormes pedras (Parafita 2006, 206-207)“.

Bibliografia:
Botelho, Henrique. “Antas do concelho de Alijó.” O Arqueólogo Português, 1.ª Série. Vol. IV. Lisboa, 1898. 180-182.
—. “Antas e castros do concelho de Alijó.” O Arqueólogo Português, 1ª Série. Vol. II. Lisboa, 1896. 264-266.
Carvalho, Pedro Sobral, Gomes, Luís Filipe Coutinho. “O Dólmen da Fonte Coberta (Alijó, Vila Real).” Estudos Pré-Históricos. Vol. VIII. Centro de Estudos Pré-históricos da Beira Alta, Viseu, 2000. 19-47.
DGPC | Pesquisa Geral. s.d. http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/70347/ (acedido em 21 de Fevereiro de 2018).
Jorge, Vitor Manuel Oliveira. Megalitismo do norte de Portugal: O Distrito do Porto – Os Monumentos e a sua Problemática no Contexto Europeu. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2 vols., 1982.
Lusa. Encontrados vestígios do Homem de Neandertal no …. s.d. http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/encontrados-vestigios-do-homem-de-neandertal-no-vale-do-coa (acedido em 21 de Fevereiro de 2018).
Medina, João, direcção de. História de Portugal. 15 vols. Alfragide, Amadora: Clube Internacional do Livro, s.d.
Município de Alijó. s.d. s.d. http://www.cm-alijo.pt/ (acedido em 21 de Fevereiro de 2018).
Parafita, Alexandre. A Mitologia dos Mouros: Lendas, Mitos, Serpentes, Tesouros. Vila Nova de Gaia: Gailivro, 2006.
Sanches, Maria Jesus. “A Arqueologia e o Meio Natural: o caso da implantação do sistema agro-pastoril em Trás-os-Montes e Alto Douro.” Arqueologia, Nº 24. Porto: GEAP, 1999. 43-60.
—. “As gerações, a memória e a territorialização em Trás-os-Montes (Vº-.IIº mil. AC). Uma primeira aproximação ao problema. Actas do IIIº Congresso de Arqueologia Peninsular.” Vol. IV. Porto: ADECAP, 2000. 123-145.
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Serrão, Joel, direcção de. Dicionário de História de Portugal. 6 vols. Iniciativas Editoriais, 1975.
Teixeira, Luísa. Abrigos com Pinturas Rupestres de Trás-os-Montes e Alto Douro – Pala Pinta, Penas Róias e Cachão da Rapa. Porto: Lema d´Origem, 2014.

Notas:

  1. No Paleolítico Médio surgiu o Homem de Neandertal (Homo sapiens neanderthalensis), que povoou a Europa entre 300/250 e 30 mil anos.
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