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As horas do Edmundo (2)

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Jorge Laiginhas

Natural de Safres. Historiador e escritor

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Terça-feira, 1 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
Pelo madrugar que madruguei empreitei-me à missa d’ano novo e, antes de missar o que houvera de missar, o senhor padre botou a água benta na cabeça do meu rapaz que guinchou com guinchos tão guinchados como os guinchos que a minha finada Estefânia guinchou na hora de se finar de paridela como se finou.

Ósdepois da missa botei-me a casa da minha santa mãe e botei-lhe as crias no colo para que que eu pudesse ir banquetear-me de mãos livres à Taberna do Frade que hoje, por ser primeiro do ano, vende cabrito guisado com castanhas. Entre uma guisadela de cabrito e um bochecho de vinho de estalar nas beiças, fui ouvidor duma novidade mui afiada: nos entrefolhos da governança, e pela calada do natal, houve futrica de mau agoiro lá pela Lisboa. A ver vamos se há presidente da república que tanja a governança de rabeira curta!

Quarta-feira, 2 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
O sargento Antunes prantou-se-me na alfaiataria logo pelo desjejuar pra que de pronto lhe cilhasse a jaleca pois vai num sumidoiro tão sumidinho que inté se parece com uma caveira morta!

Bufou-me, o sargento Antunes e em segredo militar, que anda com ganas d’embarcar num vapor pró Brasil e com tal embarcamento escafeder-se pra não embarcar de vapor prá guerra mundial que se guerreia nas terras da França e nas outras europas.

Encomendei-me a Sant’António por haver sido dado sem préstimo prá tropa pois, ainda moço, fui corneado no olho direito pelo boi do meu avô.

Quinta-feira, 3 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
O filho do senhor visconde, cadete da marinha em Lisboa, carteou o pai, em cifra de revolução, que, no pretérito dia 8 do finado mês dezembro do também finado ano que há pouco se finou, o senhor Sidónio Pais botou na rua o governo e, por atacado, botou na rua o senhor presidente da república que era, e, por ajuntado e atacado, o senhor Sidónio Pais patenteou-se presidente do governo e presidente da república até novas ordens que ele dará!

O senhor padre, em confissão, arrimou-se à alfaiataria pra dar súplica de feitio de uma samarra nova que me pagaria com os favores da irmã.

– Homessa! – Espirrei pecados pela boca. – Quer vossa mercê que eu lhe industrie uma samarra nova pra paga da usança de sua irmã que tão usada está?
– Não é caso para tanto espirro – espirrou-me o senhor padre – bote fazenda à samarra nova e eu dou-lhe de emprestado uma afilhada que tenho lá por casa e, a fazer fé no que ela me jura em confissão, está novinha a estrear.

Continua 

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