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As horas do Edmundo (4)

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Jorge Laiginhas

Natural de Safres. Historiador e escritor

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Quinta-feira, 10 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
Pela graça de o senhor boticário Andrade haver botado no jornal, pelos idos do S. Martinho, anúncio em busca de fêmea com medidas por medida e outras parcimónias, alampando, como alampou, uma senhora menina, vinda embarcadamente do Brasil, tão boa de rijura e misturada de cores qu’inté parece um pudim de castanhas, eu, pelos idos do ano novo, dei mando d’anunciação no jornal do anúncio que foi assim anunciado:
Senhor com senhoragem busca senhora para senhorar duas crianças, o dono das ditas, e senhorando ademais casa incluída.

Ontem, antes de hoje, recebi aviso postal de que a encomenda chegaria esta tarde pelos serviços de correio. Botei-me de molho em água de cheiro pelo alevantar e, cheirosinho como o menino Jesus, entrei na igreja pra me desapegar dos pecados a que me apeguei.

– Alevantou-se em pecado! – Fungou-me o senhor padre com olhos admirativos.
– Arriba hoje a senhora que encomendei por anunciação de jornal e quero recebê-la santamente – confessei-me.

Ósdepois cavalguei a pé em busca da encomenda que chegou com o atraso pontual dos serviços de correios. Havendo eu rezado, como rezei, para que me saísse em sortes uma senhorita brasileira, aparentada com o pudim de castanhas que o senhor boticário Andrade abocanhou, veio-me, despachada de Lisboa, uma mulher supinamente feia e tão minguada de mulher que mais se parece com uma malga de leite sem sal!

Já em casa, consumidinho de remorsos por haver dado por recebida aquela encomenda tão feiamente embrulhada, perguntei-lhe, à encomenda:
– Bebe um chá que lho boto a aquentar no lume?
– Não bebo nadinha o dia inteiro por sofrer da diurética das partes baixas e mesmo assim, não bebendo, descuido-me bastas vezes noite adentro – espremeu-se.
Ai minha santa mãe qu’a malga de leite sem sal que me veio senhorear mija na cama! – Excomunguei-me.

Sexta-feira, 11 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
O senhor camarista presidente que deu mando para qu’eu lhe industriasse um fato novo com lapela de cetim pra ir a Lisboa dar vivas ao senhor Sidónio Pais que por lá reina, veio secundar as provas do dito fato com lapela de cetim e empertigou as suas ventas na minha cara pois tem de juízo que o fato que presidencialmente lhe industriei o empertiga da barriga. Deu-me ganas de o cilhar pelo pescoço!

Sábado, 12 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
Acorri, como acorreu o povo inteiro, a despachar, chorosamente, o senhor presidente da câmara que lautamente empertigado, nos disse adeus de comboio pra Lisboa.

Tomei o almoço na Taberna do Frade onde fui ouvidor que desde o ano que findou a vereação da câmara não despacha cousa de préstimo. Os políticos andam endoudados como vacas à volta do pio de moer a azeitona: ora pastam, pela manhã, prá esquerda pela bitola da república velha, ora pastam, pela tarde, prá direita pela bitola da república nova!

Domingo, 13 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918

Arribou esta tarde à vila, desobrigado de continuar a guerrear a grande guerra que se guerreia na França e europas adjacentes, o meu amigo Raimundo, destemido cabo de montar. Vem estropiado pelos gases asfixiantes que por lá tomou. Perguntei-lhe:
– Doí-te muito o estropiamento?
– Na França os navios sem patas voam! – Respondeu-me.

Continua 

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