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As horas do Edmundo (5)

A malga de leite sem sal que me chegara de Lisboa pelos serviços do correio esparramou-se sobre as minhas carnes querendo comer-me canibalescamente!

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Jorge Laiginhas

Natural de Safres. Historiador e escritor

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Terça, 15 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
Ouvi, d’ouvido, passos de passarinhar nas tábuas do corredor que faz d’introito ao meu quarto de dormir, onde durmo. Ouvindo o passarinhar qu’ouvi, alevantei as orelhas d’atalaia como cão perdigueiro, botei ladainha rezada, e encerrei os olhos.

Ósdepois de jazer assim quasi morto por tempo d’endoudar, imbesporei-me e, assim imbesporado, amortalhei-me nos cobertores d’ovelha.

– A defunta Estefânia foi-se intás profundezas dos infernos – benzi-me, santamente.
Nestas derradeiras noutes a defunta Estefânia tem passarinhado pela casa. O senhor padre deu-me fala de água-benta qu’ela, a defunta Estefânia, é uma alma sem pouso nem repouso. Por mor dos bruxedos botei as criaturas, que são meus filhos em sociedade que tive com a bruxa Estefânia, a dormir na casa da minha mãe.

O passarinhar voltou ao corredor e as tábuas gemiam gemidos como gemem gemidos as gatas quando andam ao touro. O coração pinchou-me do peito prá boca, as pernas fanicaram-se-me e os olhos alumaram-se-me naquele rompante em que a porta do quarto onde eu ardia em labaredas d’inferno s’abriu:
A malga de leite sem sal que me chegara de Lisboa pelos serviços do correio esparramou-se sobre as minhas carnes querendo comer-me canibalescamente!

Já mui mais canibalado que homem inteiro, gritei um grito roucamente gritado e acudiu-me a Fafanica, a criada velha que me vem servindo inté qu’eu amanhe criada nova.
– Encerrei a oferecida na loja do macho e que se amache – amachou-me a criada Fanfanica noite adentro.
Acordei positivamente fafanicado!

Quinta, 17 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
A grande guerra que se guerreia bravamente em terras da França e nas outras europas do mundo é guerreada à força da manteiga que vai de Portugal. Os industriais de vacas portuguesas toparam que a guerra precisa de untura de manteiga e vai daí apartam-na do leite, exportando-a por dinheiro gordo, e por cá vendem leite magro. Fui sabedor pelo jornal que a maior soma do leite que se vende na cidade de Lisboa e afins é tão desnatado como mijo de mula!

Sábado, 19 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918

O presidente do governo que reina mandou pra casa os corpos administrativos que administravam à moda antiga e deu pau de mando a outros pra que reinem à moderna.
O senhor camarista presidente que foi a Lisboa dar vivas a quem por lá reina aquando regressar há de ficar enjoadamente triste pois no entrementes perdeu o pastar, digo, perdeu o lugar.

Domingo, 20 de janeiro do ano da graça de Deus de 1918
O senhor padre fez anos d’aniversário e eu, mestre d’alfaiataria acolitado por outros industriais de comércio, dei mando pra que s’acendesse festança rija com matança de reco, banda de música e foguetório de lágrimas.

O beija-mão ao senhor padre foi ordinário. As mulheres entesavam as beiças na beijação e os homens das mulheres entesavam o nariz por vê-las, às mulheres, tão assanhadamente tesas.
O Jalé Ferrador fez PUM! e matou, ali, diante de todos, a mulher que fazia de sua esposa!
A ter que fazer o que fez, o Jalé Ferrador haveria de o ter feito em outra hora e em mais recato pois estragou a festa d’aniversário do senhor padre: não se comeu o reco, não tocou a banda de música e nem os foguetes choraram as lágrimas. Que maçada!

(Continua)

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