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Divagações à volta dos ramais ferroviários do Corgo, do Tua e do Sabor

É bom que alimentemos a memória para percebermos algumas debilidades de posições atuais e sobretudo a responsabilidade histórica de atos devastadores para o interior do país de muitos daqueles que governaram e/ou continuam a governar Portugal.

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Luis Pereira

Membro da Assembleia Municipal de Alijó eleito pelo BE [+]

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Os ramais ferroviários do Corgo, do Tua e do Sabor são já vestígios arqueológicos que se relacionam com um país que a dada altura se preocupou com os “povos indígenas” que ocupavam um espaço territorial delimitado por montanhas gigantescas e onde chegar era muito mais difícil do que ir buscar pimenta à Índia.

Esse milenar isolamento da região de Trás-os-Montes e Alto Douro só em parte começou a ser quebrado pelo programa do governo de Fontes Pereira de Melo, ministro da Regeneração, altura em que foi criado o primeiro Ministério das Obras Públicas no país. É nesse período, meados do séc. XIX, que na região, e particularmente na zona do Douro, são lançadas algumas obras viárias para dinamizar a economia do vinho, do vinho fino, do vinho tratado, do vinho do Douro, que não do Porto, que já nesse tempo se constituía como um dos principais produtos das exportações portuguesas.

Um pouco mais tarde, no último quartel do séc. XIX, assiste-se a uma época em que a macrocefalia da capital oferece qualquer coisa de novo e verdadeiramente revolucionário a este interior esquecido que assiste pasmado à chegada da tecnologia do comboio a vapor, que depois de instalado no vale do Douro começa a romper o vale do Tua em 1884. E quando a Monarquia caiu e a República se impôs, já aqui há algum tempo o comboio silvava entre o vale, a montanha e o planalto.

A partir de finais do séc. XIX e inícios do séc. XX, Trás-os-Montes tornou-se, efetivamente, uma região mais aberta ao mundo, com a montagem de infra-estruturas ferroviárias que lhe permitiam a comunicação com o exterior. Entrava-se na região através da Linha do Douro e depois seguia-se para Vila Real, para Chaves, para Bragança ou para Miranda do Douro através dos ramais ferroviários do Corgo, do Tua e do Sabor.

Quem estuda História não descarta a hipótese de que esta região, por essa altura, poderá ter acreditado em algo novo, numa nova vida, num processo qualquer de transformação que desse mais felicidade a esta gente. Mas não. Nada aconteceu de verdadeiramente novo aqui! Se houve esperança, ela depressa se desvaneceu e todos esses homens e mulheres baixaram novamente os rostos ao chão à procura dos parcos grãos de centeio para melhor aconchegar a barriga dos numerosos e esfaimados filhos. E depois, na escuridão das trevas que o fascismo impôs à nação, o silvo do comboio continuou a rasgar diariamente o desespero de um silêncio decretado pela vontade de um ditador, dos seus lacaios e dos insuportáveis correligionários de que ainda hoje há semente em preocupante germinação.

Durante quase todo o séc. XX, o comboio foi para Trás-os-Montes um elo imprescindível e fundamental que operava a ligação com o exterior, escoava mercadorias e permitia os fluxos de pessoas, bens, ideias e algumas conspirações. Nessa altura, Trás-os-Montes era uma terra de gente que amanhava o campo ao ritmo da luz do sol, parindo e criando “ninhadas” de filhos que desde muito cedo aprendiam o significado e o verdadeiro valor do pão.

E todos esses meninos transformavam-se lentamente em jovens ao ritmo monótono e ronceiro da passagem de um comboio. E depois do comboio passar, olhavam em seu redor a perscrutar um silêncio frio e húmido enquanto cismavam, cismavam e cismavam. Nas tardes de chuva invernal esgaravatavam entre as brasas da lareira da casa paterna os seus sonhos luzidios, gizando com a tenaz os projetos de um futuro que pretendiam diferente. E então, com a incorporação na tropa, à procura dos seus sonhos iam, embarcando nesse mesmo comboio que só parava junto ao mar. Uma vez apeados embarcavam depois em colossais navios, quantas vezes em direção à morte, ou ficavam pelas grandes cidades a povoarem as fábricas e os estaleiros onde haveriam de mais tarde construir o seu grito de revolta.

O comboio ritmou de forma indelével os ciclos conjunturais da História transmontana de todo o séc. XX, e se não houvesse outros motivos eu fundamentaria nessa História o principal argumento para defender os ramais de linha estreita do Corgo, do Tua e do Sabor, assim como a reabertura do troço da linha do Douro do Pocinho a Barca d’Alva, com a respetiva continuidade no país vizinho. Mas há muitas mais e variadas razões para pugnar pela continuidade destas linhas, exigindo a reabertura de todas elas. Não vou falar sobre as vantagens para a região da continuidade e manutenção destas vias-férreas, mas será sobretudo no turismo e na utilização racional das fontes de energia nos transportes regionais que nós iremos encontrar as suas principais valias.

Numa altura em que o caminho-de-ferro começa a ser revigorado na maioria dos outros países europeus, eis que Portugal, mais uma vez, ruma em contraciclo.

Se fizermos um recuo no tempo, facilmente percebemos que a destruição não começou há muitos anos e coincidiu com o início das políticas neoliberais em que Cavaco Silva foi o grande pioneiro e protagonista. Foi ele que encerrou a Linha do Sabor e foi também ele que encerrou troços significativos das linhas do Tua e do Corgo, a que depois José Sócrates deu o “golpe de misericórdia” final.

É bom que alimentemos a memória para percebermos algumas debilidades de posições atuais e sobretudo a responsabilidade histórica de atos devastadores para o interior do país de muitos daqueles que governaram e/ou continuam a governar Portugal.

Se nada fizermos hoje, se nada exigirmos neste tempo em que alguns tentam alicerçar um novo rumo para o interior; se não lutarmos de forma última por tudo o que ainda nos resta de possível e de sonho, sempre em defesa do coletivo, da região e do país… no futuro apenas nos restará a História para testemunhar a irracionalidade das nossas absurdas e indesculpáveis inações.

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