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Dr. Amílcar de Sousa: O Precursor do Naturismo em Portugal

Oriundo de uma família de abastados viticultores, Amílcar Augusto Queirós de Sousa nasceu em Cheires, freguesia de Sanfins do Douro, no ano de 1876. Concluída a formatura em Medicina, em 1905, pela Universidade de Coimbra, partiu para Paris, a fim de aprofundar os seus conhecimentos sobre as doenças da nutrição.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Na pesquisa que fiz para a elaboração do pequeno trabalho sobre o destino de parte significativa dos livros das Bibliotecas Populares, sobreviventes aos autos de fé que a febre revolucionária do PREC (Processo Revolucionário em Curso) sobre eles se fez sentir, encontrei, da autoria de Mário de Menezes, médico em Ribeira de Pena, um volume com o sugestivo título “Memórias do último João Semana”. Folheando as páginas deste livro, deparei com um capítulo alusivo ao doutor Amílcar de Sousa, o grande precursor do naturismo em Portugal.

Amílcar de Sousa

Oriundo de uma família de abastados viticultores, Amílcar Augusto Queirós de Sousa nasceu em Cheires, freguesia de Sanfins do Douro, no ano de 1876. Concluída a formatura em Medicina, em 1905, pela Universidade de Coimbra, partiu para Paris, a fim de aprofundar os seus conhecimentos sobre as doenças da nutrição.

Regressado a Portugal, iniciou uma absorvente e excêntrica campanha pelo vegetarianismo, o frugivorismo e o naturismo, enfatizando, neste campo, o poder e a importância do sol, não se cansando de proclamar: “O sol é a vida. O sol é o criador. Eu amo o sol”.

Em coerência com os seus princípios, fundou, na cidade do Porto, em 1911, a Sociedade Vegetariana de Portugal e a revista “O Vegetariano”, mantendo correspondência com as grandes sumidades médicas internacionais da sua área como o biólogo, filósofo e naturista alemão Ernst Haeckel ou o médico francês Paul Carton.

O vegetarianismo utópico de Amílcar de Sousa, baseado na consciência ética da preservação do sentido da vida, mesmo a dos animais, que não deveriam ser sacrificados para fins exclusivamente alimentares transitou, posteriormente, para um frugivorismo absoluto que ele cumpria com rigor fanático. A sua militância em favor da causa e a sua convicção faziam com que aparecesse em todo o lado e a sua figura se tornasse lendária e, por vezes, alvo da chacota, como foi o caso da revista académica “Hoje há tripas”, na qual foi retratado, vestindo apenas uma folha de figueira, a declamar:

“Se alguém me vem consultar
Sofrendo de dores atrozes
Dou-lhe nozes p’ró jantar,
E pr’ó almoço – mais nozes”!

Ao autor do livro “Memórias do último João Semana”, no Porto, quando se conheceram, Amílcar de Sousa afirmou que a atividade sexual humana era uma das causas da pouca esperança de vida e que, no seu entender, o omnivorismo, potenciando a atividade sexual, fazia encurtar a duração da vida. O frugivorismo, pelo contrário, ao fazer com que “o estímulo genésico” apenas se fizesse sentir de seis em seis meses, eliminando “o mais leve rebate libidinoso no tempo intervalar…”, contribuía para a normalização fisiologia e o consequente aumento da longevidade.

Amílcar de Sousa

Perante o sorriso do seu interlocutor perante o insólito da teoria, retorquiu: “Pois o senhor ainda se vai rir mais quando eu lhe disser que, na minha pessoa, o ciclo sexual está rigorosa e definitivamente fixado em sistema semestral; e que no dia em que cumpro a imposição fisiológica natural, tenho depois, logo a seguir, de passar quatro horas seguidas a comer amêndoas… É a única maneira de o organismo se recuperar do tremendo desgaste provocado por este ato, suposto banal e tão mal avaliado pela medicina clássica.”!

Era, igualmente, adepto confesso do pedestrianismo, gastando largas horas do dia a caminhar, muitas vezes descalço. Em Cheires e em Sanfins do Douro, dados os seus hábitos excêntricos – foi várias vezes visto “em coiro”, a apanhar banhos de sol -, era conhecido por “doutor maluco”.

Foi, também no campo da investigação e da cultura, um homem incomum, tendo publicado os seguintes livros:

O Naturismo
A Saúde pelo Naturismo
A Cura da Prisão do Ventre
A Redenção
O Naturismo em Vinte Lições
Banhos de Sol
Arte de Viver

Homem do Douro, foi também um enérgico defensor dos interesses Região Duriense defendendo, através de conferências e artigos de opinião publicados nas principais periódicos, a criação da Casa do Douro, por ele considerada como estrutura fundamental para garantir a qualidade e valorização dos vinhos do Douro e promover a sua comercialização.

Faleceu em 1940, na cidade do Porto.

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