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O Cimo da Rua na 2ª metade do século XX

Rua Capelão Morais - favaios
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Manuel Carlos Figueiredo

Natural de Favaios. Historiador

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A rua do Capelão Morais* atravessa o Cimo da Rua desde a igreja até ao fontanário, no topo, sendo a espinha dorsal daquela espaço histórico de Favaios. Actualmente vivem aí muito poucas pessoas, não atingindo vinte habitantes na rua principal. Numa visita ocasional raramente se depara com os residentes, as janelas e as portas encontram-se fechadas e transparece a imagem de um local desabitado.

As três padarias que se encontram a funcionar geram algum movimento, que aumenta em épocas festivas. Na Páscoa e nas festas do Verão as padarias são procuradas quer pelos habitantes da localidade quer de povoações próximas para fazerem os tradicionais “bolos de carne”.

Durante a festa em honra do Senhor Jesus do Outeiro o Cimo da Rua ganha nova alma … por uns dias. Assiste-se à chegada de muitos favaienses vindos de vários pontos do país e do estrangeiro, para participar na festa, matar saudades e encontrar familiares e amigos.

Se recuarmos à segunda metade do século XX o Cimo da Rua tinha vida ao longo de todo o ano e representava a “alma” de Favaios com as suas pessoas tão características, sobretudo as padeiras, e as actividades que então se desenvolviam, quer de obrigação quer de folguedo. Deve-se à panificação a alcunha de “fareleiros” dada aos favaienses.

O Cimo da Rua era o principal centro das actividades económicas que se praticavam em Favaios, da panificação à agricultura. Animava-o um corrupio de pessoas de todas as idades, desde crianças a brincar, a adultos atarefados, com os seus animais de carga (burros, machos ou cavalos), aos mais velhos que por ali permaneciam em segurança e num ambiente familiar.

A vida quotidiana era pautada pela azáfama do fabrico do famoso “trigo” em fornos tradicionais e padarias. Funcionavam uma padaria e dois fornos da D. Adélia na rua principal, os fornos do Manuel “abade” e da D. Adélia, na Viela das Queridinhas, e a padaria da Maria “estanqueira”, minha tia-avó, no Beco da Hortinha. Era nesta padaria que trabalhava a famosa forneira Maria “marentôa”.

No Beco do Ferraz funcionava um forno também da D. Adélia e na Rua do Pinheiro ficava o forno da Alice do Tóninho “calado”. Na Rua da Amargura cozia-se o pão no forno das minhas tias Celeste e Adélia e na padaria da Maria “água-pé”

As padeiras mais cobiçadas, a Adelaide “Magueija”, a Palmira “maragata” e a Maria “Sabrosa”, eram trabalhadoras que passavam de um forno para outro, de acordo com o valor da jorna e a pontualidade no pagamento.
O movimento era redobrado nos dias em que os homens da “montanha” chegavam com os burros carregados de sacos de grão, que era despejado em duas lojas onde era joeirado para ser moído nos moinhos do Narciso, do Paulino e do “pêlas”, localizados na margem do rio Pinhão, na área de Soutelinho.

De madrugada, ou de manhã cedo, saíam os homens com os animais carregados de pão para vender em localidades próximas e distantes. Outros dirigiam-se para os campos ou tomavam o caminho das matas a fim de recolherem a lenha necessária para alimentar os fornos e as lareiras.

A maioria dos residentes do Cimo da Rua trabalhava nas vinhas, do que resultava abundância de vinho que era vendido em tabernas, dada a escassez de circuitos comerciais para a sua escoação. A abundância do néctar tão apreciado e o preço acessível originavam um grande movimento nas tabernas, onde os homens matavam a sede e aqueciam a alma. Frequentavam as tabernas da Clorinda Abade, do Joaquim Souto, mais tarde do Joaquim Neves, a taberna/mercearia da Piedadinha e do Adelino “cego” e a taberna/mercearia do Mário Abade.

O movimento do pequeno comércio estendia-se às mercearias e a outros pequenos negócios.Existia a mercearia da minha tia Maria “feijoca”, a mercearia e venda de vinho da Senhora Margarida e da Adelaidinha e a venda de vinho/mercearia/drogaria/vestuário do tio Luís “carranca”.

A Ana “borracha” fazia da rua o seu estabelecimento comercial, aí se sentando com a caixa de sardinha e chicharro, enquanto o “gavião” fazia uma venda “ambulante” para dar saída ao mesmo tipo de peixe. A tia Ana “betrana” também pousava na rua o alguidar de tremoços para venda, substituídos pelas castanhas no tempo frio. Na Rua do Pinheiro ficava a loja do sapateiro “taliére”, que consertava as botas e os socos.

Os homens tinham ao seu dispor a alfaiataria do “xará”, as barbearias do Sr. Alfredo e a do meu tio Manuel “careca”, situada no entroncamento com a Rua Direita. Ao lado da última barbearia ficava a taberna do João Agrelos e a sapataria do Quintã.

O meu tio Manuel tinha feito umas leituras e filosofava sobre a vida, a história local, os antepassados da família e os espíritos que acompanhavam cada um de nós. Foi ele que despertou em mim a curiosidade pelo conhecimento.

O Cimo da Rua assemelhava-se a um centro comercial dos nossos dias, pois ali se encontrava tudo o que era necessário para satisfazer as necessidades de subsistência na época. Como nos nossos dias também existia crédito para os consumidores com menos recursos, o que fazia aumentar o livro de fiados de quantos se dedicavam ao comércio.

Nas noites mais frias procurava-se o calor nos fornos e nos dias quentes de Verão os homens sentavam-se na rua para apanharem o fresco, enquanto as crianças corriam as vielas e canelhos nas suas brincadeiras tradicionais.

Aos Sábados e Domingos a azáfama não parava. O Sábado continuava um dia normal de trabalho. Mas o Domingo era um dia diferente, embora, por vezes, fosse necessário continuar ou acabar um trabalho inadiável. Cuidava-se mais atentamente da higiene pessoal, vestia-se uma roupa limpa, prestava-se outra atenção à família, cumpriam-se as obrigações religiosas e almoçava-se uma refeição melhorada. Na parte de tarde os homens faziam a sua ronda habitual pela taberna, jogavam às cartas, ao pino e à malha. As mulheres visitavam as amigas ou conversavam com as vizinhas enquanto cuidavam dos filhos e dos membros mais dependentes da família.

Em muitos Domingos ouvia-se a música alegre dos sinos tocada pelo sacristão, o “xará”, que desta forma anunciava o baptismo de mais um favaiense.

Viviam-se com entusiasmo as festas religiosas e pagãs, a Páscoa e o Natal, a festa em honra do Senhor Jesus do Outeiro, o Carnaval e o S. João. No dia deste santo popular havia baile pela noite fora, dançavam e cantavam novos e velhos e os Senhores Doutores de Favaios e Alijó faziam questão de comparecer para dançar com as bonitas moças do Cimo da Rua. Por vezes, o S. João era animado por um grupo de músicos da antiga Banda de Música: o Alexandre “barrinhos”, o Adelino “negro” e os irmãos “sonos”.

Foi este o Cimo da Rua onde cresci. Restam-me as imagens desse fervilhar de pessoas, de um ambiente muito animado, de uma época com muitas carências económicas, mas também de muita relação de proximidade, de solidariedade e de vivência de usos e costumes desaparecidos.

*Nota – João Baptista Pires de Moraes nasceu em Favaios em 14/09/1875 e faleceu em 07/11/1935. Foi sepultado em Favaios. Estudou em Lamego, foi pároco em S. Mamede de Ribatua, no início do século XX, e capelão militar no Regimento de Infantaria, Nº 18, no Porto. Em Favaios existe a Rua Capelão Morais, em sua homenagem.

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