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Há mais vida para lá do litoral

Os Presidentes de Câmara têm de ser os primeiros a saltarem para a trincheira da frente e defenderem os seus municípios, blindados pela responsabilidade e obrigação de manterem vivos os seus territórios, ao invés de cederem aos interesses pessoais, partidários e capitalistas.

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Jorge Carvalho

Candidato autárquico pelo Bloco de Esquerda no concelho de Alijó

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No discurso de abertura no Encontro do Interior realizado este ano pelo BE em Alijó, distrito de Vila Real tive oportunidade de descrever que o próprio conceito “INTERIOR” está a sofrer transformações. E por me parecer inegável, quer as forças políticas e governamentais como a sociedade civil têm obrigação de encontrar novas respostas. E, nós, enquanto cidadãos, também.

Existem, a meu ver, vários “interiores”. Desde logo os interiores urbanos penalizados relativamente aos restantes centros urbanos do litoral. Este “Interior” é por todos reconhecido. Excluindo o momento da publicação do PNI 20-30 (Plano Nacional de Investimento) quase me sinto tentado a dizer, por isso, pacífico.

Por outro lado e tenho para mim como o pior, o notório afastamento desses centros urbanos do interior (maioritariamente capitais de distrito) relativamente aos restantes aglomerados populacionais esquecidos e ostracizados, esses sim, vivem o interior profundo, duro e cru (os concelhos).

Sirvo-me do exemplo que melhor conheço, por vivência própria, sem precisar dos dados estatísticos por ser tão óbvio, ainda assim, para solidificar e consubstanciar o ponto nevrálgico que pretendo e de forma a poder situar os leitores que vivem esta realidade no conforto da sua lonjura, recorro à tão badalada estatística. Vila Real na década de 70 tinha 44 mil pessoas. Alijó na década anterior tinha 23 mil. Actualmente a capital de distrito ultrapassa os 50 mil habitantes. Alijó roça os 10 mil resistentes. Assustador? Para quem?

Este é o epicentro do problema. Para uns perderem, outros ganham, num ringue de luta desigual. Vila Real queixa-se, e bem, da discriminação do Poder Central face ao Porto, por exemplo, no entanto é, cada vez mais, uma autêntica cidade “eucaliptal” sorvendo as oportunidades que vão chegando, mesmo em conta gotas.

Não me consta que Vila Real reinvindique o que quer que seja para a Régua ou Montalegre. Ou que esteja preocupada com os problemas de Vila Pouca de Aguiar ou de Mesão Frio.

É certo que para Vila Real o crescimento populacional, económico e de oportunidades é uma mais-valia para a cidade mas também não é menos verdade que este factor de desenvolvimento estratégico, ainda que por merito próprio, não deixe de ser egoísta e egocêntrico contribuindo assim desmesuradamente para o aumento do fosso do isolamento, do envelhecimento e do abandono das terras levando a própria morte a várias localidades que a circundam.

Afinal onde está a responsabilidade de uma capital de Distrito se é ela própria que devasta e empobrece tudo à sua volta?

A maior riqueza é o capital humano e Vila Real há muito tempo que descobriu isso, cativando assim os jovens e as pessoas da periferia oferecendo-lhes melhores perspectivas de vida. Universidade. Hospitais. Emprego. Cultura. É, por isso, provavelmente, o maior perigo para o seu próprio Distrito. Não é pacífico dizer isto? Não! Mas muito pior é viver isto!

Os Presidentes de Câmara têm de ser os primeiros a saltarem para a trincheira da frente e defenderem os seus municípios, blindados pela responsabilidade e obrigação de manterem vivos os seus territórios, ao invés de cederem aos interesses pessoais, partidários e capitalistas.

Certamente, esta realidade estender-se-á pelo restante mapa do nosso país, o que nos obriga a juntar esforços para se criar um plano de alerta imediato de forma a serem encontradas condições para reverterem esta tendência suicida. Porque, efectivamente, as há! Não tem havido é sensibilidade política e vontade governamental. Não existe um plano estratégico estrutural de ordenamento local e desenvolvimento regional, principalmente no mapa do chamado “Interior”.

Há sim, um país que esconde o avesso com um direito inclinado, mas frágil por ser avesso à sua própria essência. Um país desmembrado, é uma nação vulnerável.

Enquanto nao vestirmos as partes do desenvolvinento equitativo como um todo, vamos puxando a manta retalhada de desigualdades deixando destapados os mais tapados pelas injustiças.

Regionalização, é a solução? Pois que seja implementada urgentemente, mas que não venha como mais uma ferramenta exclusiva para servir os interesses das capitais de Distrito. E, se há mais vida para lá do litoral, também há mais vida para lá das capitais de Distrito.

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