Plataforma digital de comunicação multimédia para a promoção e divulgação do concelho de Alijó. Espaço cívico de debate, de informação, de opinião plural e de defesa dos interesses concelhios.

Memórias do Sótão (3)

0 1.268
Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

+ artigos

O padre Augusto Teixeira Maio foi um ilustre sacerdote pertencente à Província Portuguesa da Congregação do Espírito Santo. Natural de Sanfins do Douro, aqui vinha com certa regularidade. Era um homem afável, muito simples, que cultivava a amizade, não perdendo a oportunidade, quando entre amigos, de beber o seu copito.

O professor Domingos Moutinho de Carvalho era natural de Montalegre mas fez a maior parte do seu percurso profissional em Sanfins do Douro, terra onde casou, onde nasceram os seus filhos e onde viveu parte significativa da sua vida. Tal como o seu amigo padre Augusto, não se fazia de rogado quando se tratava de uma boa merenda.

O António Figueiredo e o José Lopes, conhecido por Zé Bispo, eram homens mais simples, pessoas mais ligadas ao trabalho do campo, chefes de família considerados e compinxas de animadas e prolongadas merendas, numa qualquer adega, à volta de um tonel.

Estávamos na década de setenta do século passado. Nesse tempo, não havia ligação direta entre Sanfins do Douro do Douro e o Pinhão para o comboio da tarde: a carreira, como então se dizia, saía de Alijó e era necessário ir apanhá-la a Favaios. Como era habitual nestas circunstâncias, era o professor Carvalho quem transportava, no seu carro, o padre Augusto Maio, até Favaios, tarefa que ele cumpria com evidente satisfação.

Naquele dia, seguiram para Favaios o professor Carvalho e o padre Augusto mas também, o António Figueiredo e o José Lopes. Ao chegarem a Favaios, como ainda faltavam uns minutos para a carreira, resolveram ir beber um copo ao café do António Paredes que ficava mesmo ao lado da paragem da camionete. Como, para eles, um copo nunca era apenas um, entre os dois ou três que beberam e a conversa que entabularam, a carreira chegou, recebeu os passageiros que a aguardavam e… partiu sem que os nossos amigos dessem por isso!
– Domingos, – disse o padre – tens que me levar ao Pinhão…
– Não há problemas – respondeu o professor Carvalho – aqui não ficas!

Meteram-se os quatro no carro, um Opel recentemente adquirido ao Antoninho Boura e, por alturas de Vale de Mendiz, ultrapassaram a carreira, ganhando-lhe algum avanço até ao Pinhão. Aqui chegados, o padre Augusto foi comprar o bilhete. Olhando para o relógio da estação, perceberam que ainda havia tempo para um último copo. Atravessaram a rua, entraram no Grande Ponto e, repetindo-se a cena de Favaios, já só viram a traseira do comboio a desaparecer na estação!

O Peso da Régua era, desta forma, o próximo e último encontro possível com o comboio. Foram para a Régua, deram uma escapadela até ao Pinto, beberam um copo, comeram um pastel de bacalhau e, mais uma vez, o comboio partiu sem que o padre Augusto o conseguisse apanhar.

A coisa complicou-se mas este novo contratempo não derrotou os quatro amigos que rapidamente encontraram solução: o padre Augusto que, por mais do que uma vez, utilizara o transporte rodoviário para ir para Braga, seu destino daquele dia, pensou que talvez ainda fossem a tempo de, no Alto da Lixa, apanhar uma eventual carreira para Braga.

No Alto da Lixa, mesmo em frente à igreja, havia uma casa de pasto bem conhecida do professor Carvalho e de muitos sanfinenses que costumavam fazer praia na Póvoa de Varzim. Era uma tasquinha familiar que servia um ótimo verdinho e uns petiscos deliciosos. Entraram.

Era já de madrugada quando, na cidade dos arcebispos, o José Lopes, porventura aquele que, ao longo da jornada, melhor conservara a lucidez, foi bater à porta do filho António Zé, na altura a trabalhar na Caixa Geral de Depósitos de Braga, pondo fim a uma viagem que, em princípio, não deveria demorar mais do que uns minutos!

Comentários
Loading...