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Memória do Sótão (7)

A minha crónica de hoje é exatamente sobre o Samarrão ou, melhor dizendo, sobre a sua intervenção aquando da passagem de Afonso Costa, no dia 2 de setembro de 1911, pela casa do Conselheiro Teixeira de Sousa, no âmbito de uma digressão realizada pelo Norte de Portugal.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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“Samarrão” é uma das cerca de quatrocentas alcunhas que já coligi em Sanfins do Douro, terra em que a maioria dos habitantes não era, até há bem pouco tempo, conhecida pelo nome de batismo mas, sim, pela alcunha que herdara ou viria a adquirir ao longo da vida.

A minha crónica de hoje é exatamente sobre o Samarrão ou, melhor dizendo, sobre a sua intervenção aquando da passagem de Afonso Costa, no dia 2 de setembro de 1911, pela casa do Conselheiro Teixeira de Sousa, no âmbito de uma digressão realizada pelo Norte de Portugal.

Teixeira de Sousa foi Primeiro-Ministro de D. Manuel II, cargo que desempenhava a 5 de outubro de 1910, aquando da eclosão da revolta que culminaria com a implantação da república em Portugal. A sua falta de reação aos acontecimentos desse dia valeu-lhe o desprestigiante epíteto de coveiro da monarquia que lhe foi atribuído pela maioria dos movimentos monárquicos, descontentes com a sua inação.

Político hábil, Teixeira de Sousa criou e desenvolveu amizades com as principais figuras do novo regime político que habitualmente o visitavam, mesmo nas longas temporadas que ele passava em Sanfins do Douro. Este era o caso.

Embora a visita de Afonso Costa não tivesse caráter oficial nem tivesse sido divulgada, uma inconfidência de uma das criadas, na véspera, no talho, dando a entender que, no dia seguinte, o Anticristo, como era popularmente conhecido o governante, viria visitar o senhor conselheiro, fez levantar uma onda de indignação entre os populares, a maioria deles nados e criados durante a monarquia.

Assim, por conversas de taberna e de armazém, ficou decidido que, quando Afonso Costa chegasse, os sinos tocariam a rebate e, depois, logo se veria.

Ao início da tarde, três automóveis – uma fartura, numa terra que nunca tinha visto nenhum!… – refrearam a marcha à entrada de Sanfins, procurando saber onde morava o senhor conselheiro. Espalhada a notícia da chegada da comitiva, logo os sinos começaram a tocar, convocando a população.

Entretanto, os visitantes encontravam-se já dentro da propriedade do conselheiro, ignorando o que se passava no exterior. Cá fora, o povoléu ia-se aglomerando à volta da casa, dando vivas à monarquia e morras ao Anticristo. Havia até quem cantasse:
Da pêra do Anticristo
Hei de fazer um pincel
Para lavar o penico
A el-rei D. Manuel

Concentrava-se cada vez mais gente e os ânimos estavam cada vez mais exaltados. Entre os manifestantes encontrava-se o Samarrão, homem de meia idade, corpulento, com a sachola de regar milho na mão. Os protestos subiam de tom e eram perfeitamente audíveis dentro da casa, razão que terá levado a que, por razões de segurança, o encontro entre Teixeira de Sousa e Afonso Costa fosse encurtado. E foi a muito custo que a segurança conseguiu abrir caminho para que os automóveis pudessem abandonar o interior da propriedade para prosseguirem a viagem.

À passagem, necessariamente vagarosa da caravana, dado o aglomerado de pessoas, gritava-se a plenos pulmões:
– Viva o rei! Viva o rei!
– Abaixo o Anticristo!
O Samarrão, que estava um pouco mais para trás, perguntou:
– Onde vai o Anticisto? É aquele de pêra, não é? Espera aí que eu já te dou o chiadoiro. E dizendo, arremeteu contra a viatura atestando-lhe uma tremenda sacholada que lhe rasgou a capota!

Esta façanha do Samarrão fez dele um herói local. O povo sempre o respeitou, lhe deu de comer e o ocultou à justiça nos tempos que se seguiram. Nunca foi preso nem julgado. Já velhinho, dizia:
– Por pouco não fiquei na História!

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