Plataforma digital de comunicação multimédia para a promoção e divulgação do concelho de Alijó. Espaço cívico de debate, de informação, de opinião plural e de defesa dos interesses concelhios.

Memórias do Sotão (1)

S. Mamede de Ribatua e Pegarinhos são, igualmente, localidades em que o gosto pelo Teatro se mantém nos dias de hoje, destacando-se claramente das demais S. Mamede pela quase devoção com que ele é vivido

0 1.726
Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

+ artigos

Inicio hoje um conjunto de pequenas histórias da vida real com o seu quê de picaresco, procurando integrá-las no quadro social em que tiveram lugar.

As duas primeiras estão associadas ao teatro. O Teatro é uma das atividades culturais que mais antigas e arreigadas tradições possui em terras de Alijó. Data de 1908 a primeira referência escrita a esta atividade no Concelho: a “Ilustração Transmontana” de agosto de 1908, noticia o êxito que constituiu a representação, em Favaios, da peça “Drama do Povo”, de Pinheiro Chagas.

Anos mais tarde, em 1942, o enviado especial do jornal “O Primeiro de Janeiro” à Romaria de Nossa Senhora da Piedade, salientava, com evidente admiração, o espetáculo simples e ingénuo mas, ao mesmo tempo, sóbrio e honesto que foi a apresentação, ao ar livre, da peça “A Escrava Andreia”, de Alexandre Dumas, considerando estas “encantadoras tradições como do mais primitivo e interessante que pode ver-se nas terras de Portugal!”

S. Mamede de Ribatua e Pegarinhos são, igualmente, localidades em que o gosto pelo Teatro se mantém nos dias de hoje, destacando-se claramente das demais S. Mamede pela quase devoção com que ele é vivido e transmitido de geração em geração e Pegarinhos pela verdadeira relíquia do teatro popular que é o “Auto da Criação do Mundo ou O Ramo”.

Pois bem: o teatro de antanho não se resumia à representação – implicava a escolha das peças em função do número de “atores” disponíveis, incluindo nessa disponibilidade aqueles que sabiam ler, os ensaios, a construção dos palcos, a confeção dos trajes, etc. Durante todo o tempo de preparação, terão sido inúmeras as peripécias que se foram desenrolando e os conflitos que que foi necessário ultrapassar. Às vezes, mesmo no palco, durante a representação, surgiam situações imprevistas que era necessário ultrapassar, mesmo recorrendo à ingenuidade que atrás referi. É o caso que passo a contar e que se passou em Sanfins do Douro:

Estava a peça a chegar ao seu clímax e, em palco, apenas dois atores defrontando-se num duelo. Ao chegar o momento do disparo, a pistola encravou e a cena ficou em silêncio total: o putativo morto à espera de morrer, o antagonista pendente do disparo e os espetadores de olhos fixos em ambos, sem perceberem o que tinha acontecido.

É então que aquele que deveria matar se aproxima do contendor, dizendo em voz forte e declamada:

– O que tu merecias, sim, o que tu merecias… – e deu-lhe um pontapé!

O outro, o que tinha que morrer, sob o risco de aniquilar toda a peça, com voz rouca e contorcendo-se com dores, exclamou:

– Ah bandido, que tinhas a biqueira da bota envenenada!…

E cambaleando, caiu ao chão, morto!

Comentários
Loading...