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Memórias do Sótão (2)

- Não lhe toques, Madalena, que ainda é pior!...

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Tal como afirmei na minha crónica anterior, o Teatro é uma das mais antigas e acarinhadas tradições culturais das terras de Alijó e da própria região do Douro. Com efeito, de acordo com a “História do Teatro”, de Luís Francisco Rebelo, o testemunho escrito mais antigo que se conhece sobre manifestações teatrais em Portugal data de 1193 e refere-se à doação, por D. Sancho I, de umas terras no lugar de Canelas, da atual freguesia de Poiares, a um tal Bonamis e seu irmão Acompaniado, em recompensa por um “arremedilho” que estes teriam feito representar na corte. Este “arremedilho”, apresentado cerca de trezentos anos antes do nascimento de Gil Vicente, terá sido, então, o primeiro texto teatral escrito em Portugal e os seus autores eram durienses!

Para ilustrar o gosto pela arte de Talma no Concelho, bastará referir, para além das representações ao ar livre já mencionadas na primeira crónica, a antiguidade e o número de salas de teatro existentes, algumas delas destruídas por remodelações de gosto duvidoso, e o entusiasmo com que, entre 22 de abril e 13 de maio de 1989, decorreu o “Primeiro Festival de Teatro de Alijó” com a participação dos grupos de S. Mamede de Ribatua, Vale de Mendiz, Santa Eugénia, Carlão, Alijó e Sanfins do Douro.

Este primeiro encontro que, lamentavelmente, não teve sequência, foi organizado pela Coordenação Concelhia de Extensão Educativa e contou com o apoio da Câmara Municipal, do Instituto da Juventude e do Centro Cultural Regional de Vila Real, na altura presidido pelo saudoso António Cabral que, de resto, viu uma peça sua, “Temos Tempo, Matilde”, representada pelo grupo de Alijó.

Eram objetivos do projeto o reavivar da tradição teatral no Concelho e a itinerância cultural interna, levando o Teatro a terras diferentes daquelas que ainda possuíam grupos em atividade, promovendo, igualmente, o aparecimento de outros grupos, o que, em parte, foi conseguido. A título de curiosidade, para além da peça atrás referida, foram representados, no âmbito do festival, textos de Bernardo Santareno (“António Marinheiro”), Francisco Ventura (“Casa de Pais”), Guilherme Figueiredo (“A Raposa e as Uvas”), Júlio Dinis (“Os novelos da tia Filomena”) e Romeu Correia (“Céu da Minha Rua”).

Alguns dos grupos participantes no festival desapareceram logo a seguir, por falta de apoios, mas outros continuam ainda em atividade, embora sem a regularidade que eles próprios gostariam de manter, muito por culpa da desertificação humana que se abateu sobre as nossas aldeias. Há, felizmente, grupos que surgiram já depois de 1989 e que apresentam um louvável e bastante regular trabalho, como acontece em Favaios, com dois grupos em atividade!

A história que hoje vos apresento, igualmente verdadeira, passou-se durante a representação da Paixão de Cristo, uma das temáticas tradicionalmente mais do agrado das populações:
Mesmo na parte final da função, estava o “Cristo” pregado na cruz, já morto, com a cabeça ligeiramente inclinada para o lado. Entre outras figuras que também ali se encontravam, “Maria Madalena” permanecia junto à cruz com semblante sofredor. O nosso “Cristo”, lá do alto, tinha uma visão privilegiada do perfil de “Maria Madalena”, perfil que o traje bíblico generosamente ajudava a descobrir…

E foi então que, por detrás da tanga que cobria as partes íntimas do “Cristo”, algo de estranho começou inusitadamente a despontar. “Maria Madalena”, apercebendo-se da situação, levantou-se, aprestando-se para, piedosamente, ocultar a forma intrusa quando, lá de cima, em sussurro rouco, o “Cristo” lhe recomendou:

– Não lhe toques, Madalena, que ainda é pior!…

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