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Memórias do Sótão (4)

O padre Augusto era, como então referi, uma pessoa muito querida dos seus contemporâneos, tão estimada que lhe foi permitido levar por diante um projeto para qualquer outro mortal perfeitamente impossível de concretizar, pelo menos em Sanfins do Douro.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Falei, na minha última crónica, na atribulada viagem de regresso a Braga do padre Augusto Teixeira Maio, sacerdote espiritano cuja memória se começa lamentavelmente a perder e do qual resta, apenas, uma fotografia sem identificação na sacristia da igreja paroquial.

O padre Augusto era, como então referi, uma pessoa muito querida dos seus contemporâneos, tão estimada que lhe foi permitido levar por diante um projeto para qualquer outro mortal perfeitamente impossível de concretizar, pelo menos em Sanfins do Douro.

Por finais dos anos sessenta do século passado, vivia em Sanfins do Douro, na zona do Castelo, um pedreiro, por alcunha o Bochinhos, que, nos tempos livres, esculpia pequenas figuras em granito que causavam a admiração dos vizinhos e daqueles que passavam à sua porta. Um dos admiradores dos trabalhos do artista era exatamente o padre Augusto que, a certa altura, descobriu umas vagas semelhanças entre uma das peças e a imagem de Nossa Senhora da Piedade!

Decidiu, por isso, com a concordância do eufórico escultor, conceder à estatueta a dignidade que as vaguíssimas e, aos olhos de muitos, inexistentes parecenças à Senhora da Piedade, amplamente, no seu entender, justificavam.

Assim, num cabeço razoavelmente inclinado, existente ao lado da velha forja da Portela, utilizado pelo rapazio para, utilizando uma laje de pedra, experimentar a adrenalina da descida, escorregando de lá do alto até à estrada, no local onde, posteriormente, foi construído o edifício em cujo rés-do-chão funcionou o Café Vilela, o padre Augusto mandou erguer uma pequena base de cimento para ali entronizar a imagem.

Em agosto, na altura da procissão de velas da romaria de Nossa Senhora da Piedade, naquela época realizada ao sábado, no momento da passagem pelo local, o padre Augusto procedeu à bênção solene da sua santa, enaltecendo a habilidade do escultor e o orgulho que sentia por em Sanfins do Douro haver alguém com o seu talento.

A procissão seguiu a sua marcha em direção à ermida e, tal como hoje, as pessoas mais idosas e com mais dificuldade de locomoção, foram ficando por ali a conviver e a rezar, tendo as mais piedosas deixado as suas velas a arder à volta da nova santa.

A verdadeira contestação à iniciativa começou na manhã de domingo quando centenas de pessoas, sanfinenses e romeiros, se concentraram para a receção à Senhora da Piedade na sua imagem original, um dos momentos mais solenes e emotivos da Romaria. Ficou então claro perante todos que a imagem de pedra não tinha absolutamente nada a ver com a verdadeira e que tudo aquilo não passava de um tremendo disparate, de mais um devaneio do padre Augusto, uma coisa sem pés nem cabeça…

A Romaria decorreu com a habitual normalidade mas, aquando da passagem da procissão de regresso da Senhora da Piedade pelo local, no dia seguinte, apenas um pedaço de cimento, no meio do cabeço, indicava o sítio onde, durante umas horas, reinara a estátua que o padre Augusto Maio, num momento de hipersensibilidade artística e de fervor religioso ali fizera colocar.

Não se registaram quaisquer rebates de consciência quando, dias depois, alguém afirmou que lhe parecera vislumbrar, num silveiral da parte de baixo da estrada, um pedaço de granito, ainda com marcas de cimento num dos lados, que poderia perfeitamente pertencer à estátua apeada.

O tempo passou, a vida continuou mas, na verdade, nunca ninguém, que se saiba, procurou saber o que realmente aconteceu com o sumiço da santa!

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