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Memórias do Sótão (5)

Lívido de medo, voei para casa, a tremer, com a respiração ofegante mas, apesar de tudo, feliz por ter levado a bom porto a minha primeira incursão noturna.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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A senhora Iva, tia Iva, como era carinhosamente tratada por quase toda a gente, era uma simpática velhota que fazia a distribuição do trigo de Favaios em algumas casas particulares, entre elas a da minha avó materna. Um dos seus filhos, o António, era carteiro em Vilar de Maçada.

Naquela época, o António, um rapaz baixote e atarracado, aparência física que lhe granjeara a alcunho de Potinho, era ainda solteiro e morava com a mãe. Como não tinha transporte próprio, para se deslocar para o trabalho, ia e vinha todos os dias na carreira que ligava Alijó a Vila Real.

Era, para ele, uma curta viagem de cerca de meia hora mas que, no Inverno, cumpria literalmente à luz das estrelas porque saía antes do sol nascer e regressava já pela noite dentro e, também, porque a meia dúzia de lâmpadas que existiam em Sanfins, ou estavam fundidas ou davam uma luz tão fraquinha que mal iluminavam o próprio poste no qual estavam colocadas.

Teria eu, na altura desta memória, uns oito ou nove anos e vivia em casa da minha avó Laura Silva, na Portela, ao lado da estrada. Do outro lado, quase em frente, a menos de cem metros, ao cimo de uma curta rampa, moravam duas tias minhas, a Elza e a Maria, em casas ao lado uma da outra.

Por qualquer razão, um princípio de noite, no final da ceia, a minha avó mandou-me dar um recado a uma delas, não me lembro a qual. Não sendo eu, com aquela idade, definitivamente, um modelo de intrepidez, atravessar a rua, de noite, sem luz na rua e, ainda para mais, com nevoeiro… fui-me encostando, fui fazendo ouvidos de mercador, a ver se ainda escaparia. A minha avó, percebendo o que se estava a passar, encorajou:
– Anda lá… é já ali… eu fico à porta até atravessares. Anda… vais num pé e vens noutro!…

E lá fui. Dei o recado da melhor maneira que consegui, mas faltava o regresso. Enchi-me de coragem e desatei a correr pela rampa abaixo. Já na parte plana, a meio da estrada, embati com alguma violência em algo que me pareceu grunhir: Hum!…

Lívido de medo, voei para casa, a tremer, com a respiração ofegante mas, apesar de tudo, feliz por ter levado a bom porto a minha primeira incursão noturna.

Na manhã seguinte, acordei quando a minha avó abriu a porta para receber o trigo da tia Iva.
– Bom dia, Iva, está com má cara. O que aconteceu? – perguntou a minha avó.
– Bandidos… uns bandidos… não há direito! … – ia dizendo a Iva.
– O que foi, mulher? Tem calma.
– Tenho calma? – respondeu a outra indignada – tenho calma? Vê lá tu que ontem, mesmo aqui à frente, uns bandidos deram uma grande coça ao meu António. E o pior não é a coça: o pior é que fugiram e o deixaram estendido no chão!…

Já desperto, percebi que, afinal, os bandidos… era eu!

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