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Memórias do Sótão (6)

Para expandir a vinha era necessário ocupar terrenos até então a monte, era preciso derrubar árvores, limpar e cortar os troncos das árvores abatidas e desimpedir os terrenos para poderem ser trabalhados.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Era o apenas o Bigodes. Já ninguém se recorda que outro nome teria antes de aparecer, já adulto, em Sanfins do Douro, ostentando aquela farta pilosidade facial que haveria de lhe conferir a nova identidade: se um dia foi António, Manuel, João … ninguém se lembra. Todos o passaram a tratar por Bigodes e penso que, com o tempo, até ele próprio se esqueceu do seu nome de batismo!

O Bigodes era serrador de profissão. Chegou ele e a mulher. Naquela época, em Sanfins, era o tempo de, após a destruição provocada pela filoxera, se expandir a área de vinhedo. Era um trabalho muito duro, penoso, realizado à força de braços, em grande parte realizado por galegos que chegavam em bandos para “empreitas” de alguns meses. Trabalhavam muito, ganhavam pouco, eram explorados e ainda sofriam a chacota dos demais.

Para expandir a vinha era necessário ocupar terrenos até então a monte, era preciso derrubar árvores, limpar e cortar os troncos das árvores abatidas e desimpedir os terrenos para poderem ser trabalhados. Neste contexto favorável, o Bigodes foi arranjando sempre trabalho e acabou por ficar por cá.

O Bigodes era um homem simples, trabalhador e com um sentido de humor notável, como ficará demonstrado nas duas pequenas estórias que passo a contar:

Certo dia, andava ele no monte, no exercício da sua profissão, acompanhado pela mulher, como sucedia com frequência. Os troncos para serrar estavam colocados no ângulo superior de um cavalete constituído por dois troncos mais pequenos, dispostos em cruz, a fim de permitirem que a longa serra metálica pudesse executar os seus movimentos ascendente e descendente sem obstáculos. A mulher, sentada no tronco para o qual tinha subido através de uma escada, ajudava-o, ajustando a serra ao limite do corte, não deixando que dele se desviasse. Lá de cima, a certa altura, ela pergunta:
– Estás a ver o risco?
– Ver vejo, mas está muito alto!… – respondeu ele, com toda a calma.

Noutra altura, era verão e estava na hora da sesta. O nosso herói, já com uns copitos, foi sentar-se à sombra, na soleira da casa do senhor Júlio Forte, no início da Rua Direita. Terminado o cigarro, começou a cantar. O dono da casa, querendo descansar, abriu a janela e mandou-lhe fazer pouco barulho. Talvez por sentir que estava de facto a perturbar, o Bigodes, em vez de se calar, resolveu cantar ainda mais forte.

Perdendo a paciência, o Júlio Forte, desceu do quarto, abriu a porta a assestou-lhe um valente pontapé:
– Toma lá e cala-te!

Ato contínuo, o Bigodes parou de cantar, levantou-se e, num berreiro lancinante, encaminhou-se para casa do dr. Serafim Anjos, o médico local, bradando:
– Senhor doutor, senhor doutor, depressa, depressa, dê-me depressa uma injeção contra o tétano, que acabei de levar um coice dum burro!…

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