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Memórias do Sótão: A minha festa

Esta minha memória é a de um rapazito de oito/nove anos nascido em Sanfins do Douro – por acaso, ironicamente, até não, porque vi pela primeira vez a luz do mundo no hospital-maternidade de Alijó, em fevereiro de 1953 – numa altura em que a “festa” era vivida de maneira muito diferente da que é hoje, com muito mais entusiasmo e muito maior emoção.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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A Romaria de Nossa Senhora da Piedade é um dos meus temas preferidos e tem sido o foco principal da minha investigação dos últimos anos, culminando com a publicação, em agosto do ano passado, da sua história de mais de dois séculos.

Esta minha memória é a de um rapazito de oito/nove anos nascido em Sanfins do Douro – por acaso, ironicamente, até não, porque vi pela primeira vez a luz do mundo no hospital-maternidade de Alijó, em fevereiro de 1953 – numa altura em que a “festa” era vivida de maneira muito diferente da que é hoje, com muito mais entusiasmo e muito maior emoção.

É muito difusa a minha recordação da preparação das ornamentações por ruas, tarefa em que os respetivos moradores ocupavam os seus tempos de lazer praticamente logo a partir da Páscoa. Não era, portanto, tão cedo que se iniciava a minha festa. Ela começava em meados de julho, quando chegava a “caqueira”. Com ela vinham pratos, copos, canecas e outros utensílios ligados à culinária. Para mim, no entanto, o que tinha realmente valor eram os pífaros de barro de cores garridas e umas pequenas figuras, também de barro, em forma de ave, que o rapazio enchia de água e que, depois de cheias, ao soprar, produziam um som sibilante que nós adorávamos: eram os “rouxinóis”!

A minha festa continuava no princípio de agosto, com o início da colocação dos arcos ao longo das ruas. Era um trabalho que parecia que nunca mais acabava, deixando-me roído de impaciência: confirmar as cores das bandeirolas dos topos dos postes, das lâmpadas, do número de arcos… era uma excitação terrível ainda aumentada pelo som do arrastar dos cavaletes pela estrada, das lâmpadas fundidas a partirem-se no chão, do som dos martelos e do ambiente geral, agora já de verdadeira festa.

A excitação e a impaciência aumentavam à medida que os dias passavam: será que viriam as cestas e os carrinhos elétricos, ou só viria o carrossel? E o meu olhar dirigia-se para a estrada do Marco porque era dali que, se viessem… e vinham. Ao chegarem à Portela, já as camionetas com os cavalos, as girafas, os tigres e os leões perfeitamente acamados uns sobre os outros, mas visíveis, e vários carrinhos numerados em cima de placas metálicas, vinham escoltadas por grupos de rapazes correndo a seu lado, alguns descalços, em feliz algazarra. O grupo engrossava à medida que as camionetas se adentravam na povoação, dirigindo-se para o muro da igreja, local privilegiado para assistir ao descarregar das peças e, posteriormente, à montagem das várias estruturas. Agora, sim, era mesmo festa, melhor: era “a festa”!

Eu não sentia, neste tempo, especial simpatia pelos grupos de bombos. Aliás acho até que tinha algum medo dos “gigantões”. Ao contrário da maioria dos meus amigos, não corria atrás deles, imitando, com o gesto dos braços, os seus batimentos nem, de resto, das bandas de música que, todavia, era obrigado a ouvir, no domingo à noite, no Terreiro, pelo menos até adormecer.

Apesar da imensa quantidade de pó e das moscas que gravitavam à volta da respetiva banca, adorava beber um ou dois “pirolitos” – água natural com açúcar amarelo – servidos em garrafas de vidro com uma bolinha também de vidro no interior do gargalo: uma verdadeira delícia num tempo em que ainda eram muito raros os refrigerantes!
Gostava imenso do arraial e não adormecia sem que tivesse terminado o lançamento da terceira partida já madrugada dentro, exausto mas firme, bebendo a minha festa até à última gota.

Os dias seguintes eram de descanso e de retorno à normalidade. Enquanto dormitava ia ouvindo vagamente os sons do desfazer da festa. O cansaço, o cheiro adocicado das cascas de melão a apodrecer, espalhadas por tudo quanto era canto e os pequenos buracos nos locais onde tinham sido implantados os arcos era tudo o que ficara daqueles dias de esplendor que me fascinavam e ainda hoje recordo com saudade.

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