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Memórias do Sótão. Serragem da velha: quem se recorda?

O barulho produzido pelo arrastar da chocalhada, a vozearia, o ladrar dos cães, tudo ampliado pela noite, transmitiam uma atmosfera muito particular apenas percetível a quem a viveu.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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A serragem da velha, em Sanfins do Douro designada “serraige da velha”, é (era) uma muito antiga tradição de origem pagã, inserida nos rituais de passagem que ocorria na noite da quarta-feira imediatamente anterior ao terceiro domingo da Quaresma. Era, por assim dizer, um quase prolongamento do Carnaval, a que não faltava a diversão e a galhofa.

Em Sanfins, no entanto, a “serraige da velha” nunca atingiu a dimensão desta celebração noutras localidades em que também se realizava, não incluído, por exemplo, a leitura de qualquer testamento denunciando situações embaraçosas da comunidade ou arranjando casamentos improváveis entre pessoas de estatutos sociais diferentes, ampliando e gozando com as respetivas diferenças: os rapazes, em grupos, percorriam, durante a noite, as ruas da aldeia, arrastando latas e chocalhos atrás de si, apenas se detendo junto à porta de um ou outro velhote mais castiço, chamando pelo seu nome, não o deixando pregar olho.

O barulho produzido pelo arrastar da chocalhada, a vozearia, o ladrar dos cães, tudo ampliado pela noite, transmitiam uma atmosfera muito particular apenas percetível a quem a viveu. Recordo, a propósito, as travessuras que, nestas noites de terror para os tais anciãos já referidos, eram feitas ao tio Augusto Sapo, um já carcomido longevo, casado com a tia Alcina, meu vizinho do outro lado da estrada: plantavam-se à frente da porta, gritavam, chamavam por ele, raspavam com latas na soleira e apenas desistiam quando ele aparecia com uma cabaça de vinho. Este grupo afastava-se mas chegava outro, depois outro e assim toda a noite, não deixando dormir a vítima nem descansar os vizinhos, tal a algazarra que faziam!

A função satirizante pertencia a uma figura denominada Pai da Carne, um enorme boneco de palha andrajosamente vestido e cuja peculiaridade consistia em apresentar uma proeminente protuberância dos órgãos genitais que fazia as delícias de toda a povoação. Era ele quem, de forma ácida e picante, às vezes em verso, punha a nu os podres de toda a gente, arrancando os aplausos da multidão…

O Pai da Carne, tal como o Cavalinho, eram figuras emblemáticas do Carnaval, a par dos caretos de cara tapada com toalhas de renda e cartuchos de farinha nos bolsos para atirar às raparigas solteiras, sempre mortinhas por levar uma cartuchada, ainda que se fizessem muito ofendidas quando eram atingidas. Hoje, no nosso carnaval comuinitário, já não há Pai da Carne, não há cavalinho, desapareceram os caretos, foi-se o entrudo!

Ainda há relativamente poucos anos, sob o impulso do INATEL e do saudoso António Cabral, se tentou recuperar a figura do Pai da Carne. O Adriano, calceteiro de Cheires, construiu o boneco, eu próprio colaborei na redação de uns pequenos textos lidos pelos também já falecidos Porto Sampaio e Mário Morais, ambos homens do teatro, mas o esforço ficou por ali, pelo menos que eu saiba.

No entanto, as coisas são o que são e parece que não há volta a dar: toda a gente sabe quando é o dia das bruxas, coisa vinda das Américas; ninguém se esquece do dia de S. Valentim – e muito bem, porque namorar, sempre e em qualquer idade, é muito bom – igualmente importado do outro lado do mar. Há por aí quem saiba quando é ou foi, este ano, a noite serragem da velha? Um doce de Halloween para quem adivinhar!

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