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O concelho de Alijó em finais do Século XVIII

Relativamente à “Descrição económica do Território que vulgarmente se chama Alto-Douro”, de Francisco Pereira Rebello da Fonseca, destaque para as sugestões de cariz económico, nomeadamente em termos de utilização dos solos. Segundo ele, nos baldios e terras incultas deveriam ser semeados bons matos que garantissem boas pastagens para os gados, bons estrumes e pinhais que assegurassem as lenhas necessárias para o uso doméstico.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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O concelho de Alijó apenas adquiriu a sua presente configuração geográfico-administrativa com a Reforma Administrativa de 1853. De facto, a área atribuída ao concelho pelo Foral de D. Sancho II, em 1226, apenas incluía as povoações de Alijó, Granja, Presandães, Chã, Valdemir, Santa Eugénia, Casas da Serra, Carlão, Franzilhal, Safres, Castedo e Cotas.

No seu actual território se formaram, em épocas distintas e com períodos de existência e índices de desenvolvimento e de autonomia diferenciados, os concelhos de Favaios e de Vilar de Maçada e o Couto de S. Mamede de Ribatua.

O estudo que hoje apresento baseia-se nos elementos referenciados no “Mapa do estado actual da Província de Trás-os-Montes”, elaborado por Columbano Pinto Ribeiro de Castro no ano de 1796, três anos antes nomeado Juiz demarcante desta Província para, no propósito anteriormente expresso pelo Abade Correia da Serra, conhecer as pessoas, as terras, o que em si encerram, o que produzem e do que são capazes, na “Memória académica em que se dá a descrição da província de Trás-os-Montes e se propõem os métodos para a sua reforma”, elaborada por José António de Sá, entre 1780 e 1781, na “Descrição económica do Território que vulgarmente se chama Alto Douro”, de Francisco Pereira Rebello da Fonseca e na “Memória Económico-Política de Trás-os-Montes”, atribuída a Medeiros Velho, dadas à estampa no dealbar do século XIX.

Dos vários quadros que acompanham estes estudos, será interessante atentar naquele que diz respeito à população do Concelho de Alijó em 1796 porque, ao indicar, terra a terra, o número de fogos, de moradores e das suas profissões, nos permite compreender as dinâmicas económicas e sociais de cada uma delas:

Numa análise muito rápida aos elementos apresentados, constatamos que Carlão disputaria, na época, com Alijó, a primazia entre as terras do Concelho: tinha mais fogos, mais almas, mais eclesiásticos, mais alfaiates e mais almocreves, o que poderia indicar algum dinamismo económico e social digno de realce; registava, por outro lado, a presença de 1 cirurgião (o outro encontrava-se no Franzilhal). Alijó, por sua vez, possuía mais lavradores que empregavam mais criados e mais criadas, mais sapateiros e o único ferrador existente no Concelho. Nesta altura, o Castedo demonstrava, igualmente, alguma dinâmica interna, tal como Presandães, que possuía um número de lavradores muito próximo do de Alijó e de Carlão.

Em termos de administração religiosa, as paróquias do Concelho: Alijó, Amieiro, Carlão e Castedo, apresentavam a seguinte organização e rendimento:

Como de pode verificar, Alijó era, sem grande surpresa, a paróquia que apresentava maior rendimento, seguida a grande distância pela paróquia de Castedo, com rendimento superior à de Carlão, o que não seria de supor, tendo em conta os dados do mapa anterior.

Comparando os mesmos dados: fogos, população e rendimento das paróquias que hoje constituem o Concelho de Alijó e que, em finais do séc. XVIII integravam outros concelhos, Sanfins do Douro, então pertencente ao termo de Vila Real, era a que possuía mais fogos (171), tinha mais almas (514), mais eclesiásticos (10), mais lavradores (80) e, juntamente com Favaios, mais ferreiros (4). A paróquia tinha o descomunal rendimento de 2.500:00 reis, fazendo jus ao seu estatuto de Abadia! Ao invés, Cova de Lobos era a terra com menos fogos (8) e menos moradores (21), seis dos quais lavradores, o mesmo número dos referenciados em Safres e Casas da Serra.

Favaios, sede do seu próprio concelho, tinha mais negociantes (1), mais barbeiros (5), mais boticários (2), mais alfaiates (11) e mais sapateiros (5).

Vilar de Maçada, que também viria a ser sede de concelho e, na época, pertencia ao termo de Vila Real, tal como Vila Chã, Vila Verde, Vale de Mendiz e Vilarinho de Cotas, contava, igualmente, com um assinalável número de lavradores (78) e o maior número de carpinteiros (6).

Em 1796, Pegarinhos, Pópulo e Santa Eugénia pertenciam ao termo de Murça. Santa Eugénia era, dentre estas terras, a que possuía mais fogos (119) e mais almas (357). Vale de Cunho detinha, na época, o maior número de pastores (16), o dobro de pastores existentes no Pópulo.

Casal de Loivos e a Quinta do Noval pertenciam à honra de Gouvães. Pinhão era então um simples lugarejo da freguesia de Casal de Loivos, sem fogos nem moradores registados por parte de Columbano Ribeiro de Castro. Na foz do rio Pinhão, existia, no entanto, uma barca de passagem do rio Douro pertencente ao Arcebispo de Braga.

Os mapas que seguidamente se apresentam permitem demonstrar, em termos gráficos, como era a realidade administrativa no interior do actual Concelho de Alijó:

Interessante é a proposta de reestruturação e ampliação do concelho de Alijó que Columbano Ribeiro de Castro apresenta e as justificações que aduz, valorizando essencialmente a sua centralidade geográfica, os acessos e as vantagens para as populações que as alterações iriam trazer:

ALIJO. Hé esta villa da Real Coroa. Foi da comarca de Lamego, donde dista sete legoas, mas hé mais proprio que fique pertencendo a Villa Real, em distancia de quatro, aonde está unida interinamente, sem o grave incommodo da passagem do rio Douro e diversa provincia. Tem 813 fogos e 2883 almas, distribuídas por quatro freguesias e dez pequenas povoações.

Para substituir este lugar de juis de fora, hé necessário se lhe una como termo a villa de Favaios, sua anexa, em distancia de hum quarto de legoa, e o lugar da povoa, que lhe pertence, tres quartos, que tudo tem 293 fogos e 993 almas, extinguindo-se a Camara, como desnecessária, em cuja união convem a mesma na sua resposta n.º 150.

Deve-se-lhe mais unir o couto de S. Mamede de Riba Tua, que foi do Arcebispo de Braga, oje desta comarca, e lhe fica em distancia de huma legoa e cinco a Villa Real. Hé so huma povoação que tem 292 fogos e 1028 almas.

Do termo de Villa Real se une ao da villa de Alijo metade do lugar de Cotas, para inteirar a outra metade que há desta villa, donde dista huma legoa, e quatro daquela, e os lugares de Valle de Mendis, Villa Chã e Carvalho de Villa Chã, que ficão na mesma distancia, tanto a huma como a outra villa. Tem todos 232 fogos e 700 almas. Em compensação destes três lugares e meio que larga Villa Real, se lhe deve dar a villa de Gallegos e Lordello, que ficão em distancia, a primeira a três legoas e meia, e a segunda, cinco, e a Villa Real huma legoa, a maia remota, e meia a mais próxima, no que convem a Camara desta villa n.º 134 e a Alijo n.º 142; e com esta permuta ainda esta villa fica com menos população que antigamente.

A Camara do concelho de S. Mamede antes quer ser unida a Alijo, pela distancia em que lhe fica, e não a Provezende e Goivães, por lhe ficar remoto tres legoas e ásperos caminhos a passar. Não obstante a união da villa de Favaios a esta, o couto de S. Mamede, a permuta das duas villas pelos lugares sobreditos, não se precisa acrescentamento de officios e pode ficar com os que tem. Os que servem nas villas de Favaios, Gallegos e Lordello são serventuários e por isso se não causa prejuízo na sua expulsão. No couto de S. Mamede são os escrivães de Goivães e Provezende, pelo que pouca perda recebem na falta desta parte que se lhe tira. Devem porem acrescer-se aos oficiais da villa de Alijo os novos direitos correspondentes á villa de Favaios, couto de S. Mamede e lugares que de Villa Real se lhe unirão.

O capitão-mor de Alijo também o hé igualmente da villa de Favaios e deve ser dos lugares que se lhe unem de Villa Real e couto e S. Mamede, separando-se donde pertencião.

O dr. Juis de fora serve de crime e órfãos e assim se deve conservar, tanto nesta villa como nas que lhe acrescem.”

O Concelho de Alijó passaria a ter, se fosse levada em conta esta proposta, a seguinte composição:

E apresentaria o aspeto gráfico que se segue:

Relativamente à “Descrição económica do Território que vulgarmente se chama Alto-Douro”, de Francisco Pereira Rebello da Fonseca, destaque para as sugestões de cariz económico, nomeadamente em termos de utilização dos solos. Segundo ele, nos baldios e terras incultas deveriam ser semeados bons matos que garantissem boas pastagens para os gados, bons estrumes e pinhais que assegurassem as lenhas necessárias para o uso doméstico.

Desta forma, “havendo abundância de agua de rega, e de estrumes, e gados para fomentar a terra, podia produzir-se quantidade de linho para se empregarem as mulheres da terra na sua manufactura.” O linho era a indústria na moda em Trás-os-Montes, com a construção, em 1786, do complexo do Real Filatório de Chacim que, nos tempos áureos, chegou a ter em laboração 14 teares que empregavam 220 trabalhadores. Rebello da Fonseca, considerando “a bondade do ar” do Concelho e a “comodidade dos preços dos materiais para edificar”, propunha, igualmente, a instalação de “fabricas de meias de seda, fittas, e algum outro tecido de seda, e alguma de lanificios grossos, para consummo das lans da terra.”

A ideia da generalização da cultura do bicho-da-seda, sendo, como atrás referi, uma quase obsessão, não era uma coisa tão descabida como à primeira vista se poderia pensar, nem desconhecida no Concelho: em informação divulgada pelo Governador Civil de Vila Real de então, produziam-se em Alijó duas arrobas de casulos por ano. Curioso era, igualmente, o método de criação do bicho-da-seda – “Tomam um cortiço como o das abelhas, lançam-lhe a semente dentro, e poem-no ao lume da lareira e assim se faz a incubação; ou no seio das mulheres, em pannos. Passando o bicho ao estado de lagarta, estendem-no em cortiças, lançam-no depois das mudas no sobrado, onde em tempo competente lhe poem ramos para a subida.

Termina a informação dizendo que, para a plantação de amoreiras, “buscam de preferência os terrenos humidos, e só plantam amoreiras pretas.

As sugestões de Rebello da Fonseca não foram, como hoje sabemos, tidas em conta. A proposta de ampliação do Concelho de Ribeiro de Castro também não obteve provimento. A Reforma Administrativa de 1853 deu-lhe a configuração que hoje apresenta.

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