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O jardim do tempo

O suor dos abraços era o nosso perfume. E só tínhamos aquele jardim para acenar. E aqueles encontros para despedir. E aqueles momentos para guardar. E aqueles amores pra não mais esquecer.

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Jorge Carvalho

Candidato autárquico pelo Bloco de Esquerda no concelho de Alijó

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Foram noites e noites sem fim, que acabaram. Aquele corredor, escuro, iluminado pela lua e pela ponta do cigarro era a passadeira calcetada pelas priscas do tempo. As riscas do banco solitário, que nunca o era, iam sendo preenchidas pelas nossas confidências. De noite era o nosso orago, de dia o nosso palco de actuação.

Ah, como deixamos morrer aquele nosso jardim que durante tanto tempo foi o nosso colchão e o nosso trampolim… ou será que fomos nós que morremos, uns para os outros?

À noite o jardim era a nossa anestesia, de dia era a nossa reanimação. Quando nos armávamos em adultos, numerávamos os bancos com os beijos que tínhamos na memória. Quando descíamos à idade, saltávamos a taça, jogávamos ao estica e fazíamos corridas de ponta a ponta…

O suor dos abraços era o nosso perfume. E só tínhamos aquele jardim para acenar. E aqueles encontros para despedir. E aqueles momentos para guardar. E aqueles amores pra não mais esquecer. E os buracos, embrulhados em relva, debaixo daquele imponente banco central de pedra, guardavam as nossas mensagens de um dia para o outro…

Era a nossa sala de reuniões. Era a nossa porta de entrada. Era a nossa selva. O nosso refúgio e o nosso paraíso. Era o nosso trapézio. Era a nossa rede…parecia tudo tão nosso e na verdade, eramos todos do jardim.

Era dali, deste nosso jardim, que tocávamos o céu. Haviam noites que desligávamos a lua. Haviam dias que ligávamos o sol. Era uma varanda de sonhos. Uns caíram, outros ficaram suspensos, outros sonharam mesmo…

Era ali, neste jardim, entre os troncos poderosos na idade, que mordíamos os ponteiros do tempo, enquanto enrijecíamos os nossos ramos com a aragem das estações. Aprendemos também aqui, entre as sombras poderosas do horizonte e o sol apontado às flores viçosas, que poderíamos imaginar o mar a murchar, mas acabava sempre por dar à costa na nossa praia, o passado, às vezes ainda tão fresquinho quanto o presente. Nada, mesmo nada apaga o cheiro das folhas secas enroladas que fingiam de velas nos nossos aniversários.

Aqui nadávamos ao som do bater das asas, aqui nos bronzeávamos pelo reflexo das folhas caídas.

Foram assim anos e anos e ainda hoje vejo no espelho dos olhos os nossos passos silenciosos a vadiarem ruidosamente na memória da saudade…

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