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Padre Manuel da Nóbrega “honra da igreja e de duas pátrias”

Já agora, se reflita no respeito com que o monumento que o homenageia, a começar pelo arranjo e manutenção cuidada da relva, pela restituição das letras de bronze em falta, pela limpeza geral da pedra, incluindo as pedras da base

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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“Honra da Igreja e de duas Pátrias” – assim sintetizou D. António Valente da Fonseca, bispo de Vila Real, a figura do padre Manuel da Nóbrega, pelo bondoso papa João XXIII considerado o “Bandeirante de Deus no Brasil”.

Filho do desembargador Baltazar da Nóbrega, nasceu em Sanfins do Douro, a 18 de outubro de 1517 e faleceu no Rio de Janeiro no dia em que completava 53 anos de idade.

Em 1549, a convite do rei D. João III, embarcou na armada de Tomé de Sousa com destino ao Brasil cuja terra pisou, com uma grande cruz às costas, a 29 de março, iniciando um árduo e persistente trabalho de catequização, instrução e pacificação que fizeram dele, nas palavras insuspeitas de Stefan Zweig, o grande impulsionador e artífice da organização social, espiritual e política do Brasil.

Sanfins do Douro – Inauguração do busto do Padre Manuel da Nóbrega (1959)

Em sua honra, ergue-se em Sanfins do Douro, no Largo Teixeira de Sousa, um imponente monumento, da autoria do aclamado escritor e grande escultor brasileiro de ascendência portuguesa José de Melo Pimenta, igualmente autor da obra “Nóbrega, Cronologia da História Nobreguense”. Ao longo de quatro volumes, descreve Melo Pimenta, em linguagem elegante e emotiva, todos os obstáculos que o movimento Pró Padre Manuel da Nóbrega teve que vencer para recuperar a imagem histórica do grande missionário sanfinense e o recolocar, por fim, no lugar que era seu por direito – o pulso, o coração e o cérebro da construção da nação brasileira.

E é exatamente do volume IV da obra atrás referida que retiro, do capítulo intitulado “Nóbrega volta a Sanfins do Douro” as referências às grandes festas aqui realizadas no ano de 1959, em homenagem ao Padre Manuel da Nóbrega: “No mesmo dia 8 de agosto, em Sanfins do Douro, era inaugurada a cabeça em bronze, do Padre Manuel da Nóbrega, por mim executada, encimando o monumento anteriormente inaugurado, com a placa de bronze, pelo Comendador Abílio Brenha da Fontoura. Sobre essa inauguração da cabeça, deixemos que fale o Padre Henrique Maria dos Santos:“Rincão adorável, onde a vida e a morte se encontram numa prece e numa canção! Calvário da vida a erguer no alto corações que, de joelhos, vão prostrar-se aos pés da Virgem a implorar piedade! Socalcos e escadarias de jardins floridos que são como altares e recôncavos da montanha apocalíptica, que lembram abismos – tudo isto, o ar lavado da encosta, a alegria da gente e o arranjo do velho povoado, chapada branca e luz de raro deslumbramento, é a expressão maravilhosa da terra sonhada – Sanfins do Douro.

Sanfins do Douro – Casa do Padre Manuel da Nóbrega

Há ruas que lembram idas idades em que o Portugal menino começava a dar mundos novos ao mundo e recantos onde se embalaram alguns grandes que haveriam de ficar em letras de ouro na mais linda história do mundo.

A Cruz foi sempre o seu amparo, o seu arrimo em largas avançadas, e, quando da largada oceânica, lá se foram em demanda da terra prometida. Em nossos ouvidos parece que ressoa ainda o vozear do rapazio, de onde deveria sair mais tarde a honra e o orgulho da nossa terra – Manuel da Nóbrega.

Os seus conterrâneos não o esqueceram e, na terra bendita, na melhor praça, ergueram a pedra trabalhada da montanha para evocá-lo e indicá-lo aos que hão-de continuar a ancestralidade do recanto Sanfinense.
Desse longínquo Brasil, numa prova de imperecível portuguesismo, que não conhece tempo, nem distância, veio o busto em bronze do Padre Manuel da Nóbrega. Foi uma oferta da benemérita instituição “Centro do Douro”, que tem como objectivo o culto da Pátria distante, operando o bem. Para fazer a entrega de tão importante dádiva e assistir à inauguração, de propósito se deslocaram de S. Paulo três dos seus principais dirigentes: Artur Costa – Presidente da Direção; Augusto Herculano Ferreira Leite – Vice-Presidente e Diretor da Casa de Portugal; e António Ventura – Diretor beneficente.

Sanfins do Douro – Monumento ao Padre Manuel da Nóbrega completo

Como não podia deixar de ser, Sanfins do Douro vibrou, mais uma vez, naquele dia 8 de agosto de 1959, revestindo-se das suas melhores galas, tributando aos ilustres membros diretivos do “Centro do Douro” e a toda a comitiva, constituída por autoridades civis, militares e religiosas que os acompanhavam, calorosa e vibrante receção. Acolhidos no Largo Sidónio Pais, com Bombeiros Voluntários em grande formatura, uma banda de música que executor o Hino Nacional do Brasil, interessante e colorido rancho folclórico, foi entre alas compactas de povo que os ilustres visitantes tiveram de passar até ao local do monumento. Durante o percurso, que se encontrava juncado de verdes, milhares de papelinhos com as cores nacionais do Brasil e de Portugal foram lançados das janelas e das varandas vistosamente engalanadas com colchas e colgaduras.

No local do monumento, que se encontrava coberto com a bandeira verde-rubra, o entusiasmo atingiu o auge, e foi num ambiente de extraordinária vibração que o Presidente do “Centro do Douro”, de São Paulo, descerrou, a convite do Chefe do Distrito, o busto do Padre Manuel da Nóbrega de autoria do Dr. José de Melo Pimenta.”

Faz, o autor, na sequência do texto transcrito, referência às alocuções das várias entidades presentes na cerimónia e que me parece fastidioso reproduzir. Importante, a meu ver, é que os sanfinenses de hoje, a maioria dos quais não testemunhou quaisquer das homenagens ao Padre Manuel da Nóbrega, tome consciência da importância desta figura ímpar que entronca indelevelmente na história das duas pátrias irmãs – Portugal e Brasil.

E que essa consciência, já agora, se reflita no respeito com que o monumento que o homenageia, a começar pelo arranjo e manutenção cuidada da relva, pela restituição das letras de bronze em falta, pela limpeza geral da pedra, incluindo as pedras da base. Acredito que, assumindo essa consciência, ninguém, a coberto da noite ou à luz do dia, se divertirá mais a fazer tiro ao alvo ao busto ou a colocar “ornamentos” aviltantes na cabeça: a dimensão moral do Padre Manuel da Nóbrega e a grande maioria dos sanfinenses não merecem ser apoucados por atitudes que, ainda que isoladas, não devem, mesmo assim, acontecer.

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