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Retrospetiva: o santo moleiro e a sobranceria da imprensa regional, a partir de extratos do jornal “a juventude”, de janeiro de 1883 a março de 1885

A chegada da urna contendo o corpo de Sebastião Maria, exumado e legalmente transferido de Braga, provocou uma onda de indignação e de revolta na generalidade da imprensa liberal, propalada sobretudo pelos jornais “A Juventude” e “Correio de Alijó” que, do alto da pretensa superioridade intelectual dos seus diretores, durante quase dois anos invetivou, injuriou e achincalhou tudo e todos a seu bel-prazer, como se fosse a única detentora da verdade.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Os tiques de superioridade intelectual a que alguns se arvoram e a arrogância que de tal condição dimana não são fenómenos exclusivamente atuais: se não existiram sempre, são, pelo menos, muito antigos, como, ao longo deste artigo, se comprovará:

Após ter falecido em Braga, em 3 de abril de 1879, o corpo de Sebastião Maria foi trasladado para Sanfins do Douro, a 17 de dezembro de 1844. Por atrasos nas obras de adaptação no interior da capela, apenas a 14 de fevereiro de 1885 os seus restos mortais viriam a ser colocados na urna de vidro, por debaixo do altar de Nossa Senhora da Piedade, onde ainda hoje se conservam.

A chegada da urna contendo o corpo de Sebastião Maria, exumado e legalmente transferido de Braga, provocou uma onda de indignação e de revolta na generalidade da imprensa liberal, propalada sobretudo pelos jornais “A Juventude” e “Correio de Alijó” que, do alto da pretensa superioridade intelectual dos seus diretores, durante quase dois anos invetivou, injuriou e achincalhou tudo e todos a seu bel-prazer, como se fosse a única detentora da verdade.

Na realidade, então como agora, para o restrito grupo de ilustres arautos da ciência e ofuscantes abencerragens da superioridade intelectual, todos aqueles que não pensam como eles – se, em raros momentos de magnanimidade e de tolerância, concedem ao comum dos mortais a capacidade de pensar, – são apodados de ignorantes, estúpidos, parvos, idiotas, retrógrados, fanáticos, ou ainda, se falarmos de política, conservadores, reacionários, fsanáticos, ou, pior que tudo, de direita, o que é quase um crime e um verdadeiro anátema para aqueles que, como eu, se recusam a apanhar as canas do foguetório que certa esquerda folclórica não para de lançar.

Foi assim que, logo em 18 de janeiro de 1883, o periódico “A Juventude”, ainda relativamente pouco agressivo, registava: “Tem estado à exposição em Sanfins um cadáver mumificado de um moleiro dali e que morreu há seis anos em Braga com as honras de santo. O número de fiéis a visitar o santo é espantoso e prodigiosos os seus feitos, pois que repentinamente dá vista aos cegos e saúde aos doentes. O milagre de maior alcance que nos dizem fazer, é pôr a bolsa leve ao Zé ignorante para andar mais… ligeiro. Os povos de Sanfins não precisavam doutro filoxera.” 1

Em fevereiro de 1885, o mesmo jornal, escrevia, subindo o tom: “ O cadáver do moleiro de Sanfins enterrado em Braga há seis anos, foi reclamado pela sua família e em breve espaço rendeu grandes quantias. O que é certo é que houve extraordinária romaria àquela povoação a visitar o santo que fazia grande quantidade de verdadeiros prodígios, principalmente o de atrair o … cobre. O quanto pode ainda a superstição na gente ignorante que vê santidade aonde a ciência vê uma coisa natural. Que bom parente que até depois de morto com as suas graças e milagres quase enriquece a família.

Em 8 de março de 1885, “A Juventude” aumentava a agressividade, injuriando, em primeiro lugar, o santo que, numa tentativa de o descredibilizar, apresentava como desonesto: “ Ele, o pobre Sebastião, era moleiro. Lembrou-se um dia, depois de ter maquiado muitos anos, maquiando duplamente por um engando muito natural, a saca do seu vizinho, do seu amigo, do seu parente, de vender tudo o que herdara dos seus antepassados e tudo o que pudera adquirir pelo seu trabalho, de ir estabelecer a sua residência na cidade santa portuguesa e ali, batendo no peito, ouvindo uma dúzia de missas em cada dia, mostrando de longe as esmolas aos pobres, pedir de joelhos, de capela em capela, de romaria em romaria, perdão para os seus atos e salvação para a sua alma!

A seguir à injúria, vem o achincalho: “Sabedor do local aonde tinha morrido S. Vítor, resolveu, depois de ter entregado o que possuía para aumento do dinheiro de S. Pedro, cavar com a mesma coragem que até ali empregara maquiando, até encontrar o corpo do santo. O pobre moleiro começou de cavar, cavou sempre e morreu cheio de fome, magro como um bacalhau da Noruega, sem que pudesse descobrir o corpo do santo que lhe fugia com a mesma pertinácia com que ele o procurava. Esteve exposto à ação do tempo muitos dias sem que, nem S. Vítor nem os bracarenses tivessem dado com ele. O corpo mirrado já em vida, não se decompunha, e coisa notável, diz o povo as feras guardavam no em vez de o devorarem!!…

O ataque alargava-se, depois, à família e aos crentes: “ Passam-se quatro anos e o corpo continua intacto! A família (agora apareceu) reclama o cadáver que é conduzido a Sanfins. O povo sempre pronto pela sua ignorância, voa, corre, a casa da família do moleiro, e ali de joelhos de mãos erguidas, espicaçado pelos sotainas, levanta hosanas a este mártir. As esmolas sucedem-se, amontoam-se e dentro de dois meses o santo tinha vendido milagres na importância de três contos de réis!!!… Os cegos, os aleijados, enfim todos os romeiros voltam da sua visita piores do que foram porque trazem as algibeiras vazias.

Estendia-se, finalmente, ao imobilismo das autoridades: “ É uma vergonha isto que aqui deixamos dito um cancro que se torna indispensável contar seja da maneira que for.

O também liberal “Correio de Alijó”, animado pelo exemplo do “A Juventude”, que se publicava em Vila Real, não medindo a pequena extensão do Vilarelho, saiu a terreiro e num artigo extremamente agressivo, atirou-se aos sanfinenses com uma tal violência que, na noite de 26 de fevereiro, quarenta homens armados, idos de Sanfins do Douro, atacaram a redação do jornal, tentando matar o seu diretor, que fugiu ao ser avisado da iminência do ataque.

A situação ficou de tal modo explosiva que, para apaziguar os ânimos, uma força militar composta por cem praças do Regimento de Infantaria nº 13, comandada pelo capitão Monteiro, partiu, no dia 7 de março em direção a Sanfins do Douro, tentando prender os cabecilhas do assalto, iniciativa perfeitamente gorada porque, aqui, ninguém sabia de nada, ninguém tinha visto nada e a única prisão realizada no âmbito da missão, foi a de um cidadão que tinha servido como ajudante de professor e que foi rapidamente libertado.

Urna com os restos mortais de Sebastião Maria

Entretanto “A Juventude”, num último artigo sobre o tema, publicado a 15 de março, ironizava: “Que susto, que suores frios, que arrepios de cabelos fizeram apanhar ao pobre moleiro, ao pobre do S. Sebastião de Sanfins! Safa! Nós não lhe queríamos estar na pele, nem por tudo quanto há de melhor neste mundo! Ele, coitado, sabendo que partira desta vila, uma força militar considerável, que se dizia marchava em direção à sua terra natal, para conduzir opara aqui o seu corpo, estremeceu na campa e pediu socorro! Gritou como um pocesso [sic], e tal foi o seu esforço que, desfalecido, julgou ver através de um espesso véu que o seu delírio lhe criou, o seu corpo que as beatas tantas vezes lhe haviam beijado contritas, envolto pelas chamas duma porção enorme de carros de lenha, reduzido a cinzas, a pó, ao nada donde saíra.

Neste tom sarcástico continuava o artigo, um pouco mais à frente: “Felizmente para todos nós o santinho acordou ao rufar dos tambores, cujos sons se foram perdendo a pouco e pouco. Olhou então em volta de si e reconheceu… horror!… Que estava metido dentro duma caixa de pinho coberto de sal. É que os seus patrícios, ouvindo as vozes de socorro, tinham corrido à campa, e conhecendo também o perigo, arrancaram no dali para, salvaguardando o, o colocarem de sal… moira.

Os jornais “A Juventude” e “Correio de Alijó”, já há muito desapareceram e apenas um ou outro estudioso lhes reconhece a existência ; os seus diretores e redatores foram esquecidos. O corpo de Sebastião Maria repousa hoje exatamente no mesmo local e a sua memória continua a ser respeitada. Terão a sobranceria e o insulto grátis valido a pena?

Notas:

  1. A filoxera é um pulgão que ataca e destrói as raízes das videiras. Esta praga chegou ao Douro em 1868 e devastou muitos dos melhores vinhedos durienses, levando a miséria a toda a região. Foi à filoxera que “A Juventude” comparou Sebastião Maria.
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