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Revisitando Sebastião Maria, “O Santo Moleiro”, nos 139 anos do seu falecimento

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Desde 14 de fevereiro de 1885 que se encontram em exposição, em urna de vidro, por baixo do altar de Nossa Senhora da Piedade, em Sanfins do Douro, os restos mortais de Sebastião Maria, também conhecido por “Servinho” ou “Santo Moleiro”.

Quem foi Sebastião Maria e o que fez ele para merecer semelhante distinção? O que sabemos nós, século e meio após a sua morte, do seu percurso de vida que tão profundo impacto causou nos seus contemporâneos, ao ponto lhe dispensarem tal honraria?

Sebastião Maria veio ao mundo a 17 de janeiro de 1833 e estava destinado a, logo após o parto, ser afogado num poço existente no quintal da casa em que nasceu, na freguesia de Vila Chã. Os vagidos do recém-nascido fizeram gorar os intentos da mãe, Maria Alves de Magalhães, uma muito respeitável senhora que, através desse expediente criminoso, se pretendia livrar do embaraço de assumir um filho concebido fora do matrimónio.

Tendo escapado à morte, foi de pronto entregue na roda de Vila Real, sendo batizado na igreja de S. Pedro três dias depois. Viveu a primeira infância em Justes, em casa de um tio materno que, sabendo do parentesco que os unia, sempre o tratou de forma carinhosa. Aos quinze anos de idade, passou a viver na Chã, aí se mantendo até aos dezassete, trabalhando na lavoura e pastoreando o gado. A profissão de moleiro acontecerá mais tarde, aquando do seu regresso definitivo a Sanfins do Douro.

Sebastião Maria “O Santo Moleiro”

Somente em 1876, já 21 anos, por intercessão da Virgem Maria, ele ficaria a saber quem era na realidade a sua mãe, num episódio relatado por A.A.A. de Sousa no opúsculo intitulado “A Vida e Factos Maravilhosos do Servo de Deus Sebastião Maria” que, tal como outros da sua vida, com o tempo, passaram a engrossar o mito e, em alguns casos, confundir a lenda com a realidade.

Este perigo de mitificação e, também, o do seu contrário, o esquecimento, foram pressentidos pelo seu biógrafo que, em 1898, dezanove anos após a morte de Sebastião Maria, “enquanto a maior parte das testemunhas eram vivas”, resolveu escrever um livro onde relatava os tais “factos maravilhosos” que hoje muitos classificam como lenda. A. A. A. de Sousa, invocando como testemunhas todos aqueles que conviveram com Sebastião Maria, identifica alguns em particular, naturais ou residentes em Sanfins do Douro, Braga, ou Vilarinho de S. Romão que, continuando vivos, poderiam corroborar ou contestar os factos descritos.

Não tenho como propósito, com este trabalho, convencer ninguém sobre as virtudes de Sebastião Maria cujo exemplo cativou a grande maioria daqueles que o conheceram. A sua humildade, a sua fé, a sua piedade, a sua mansidão e o seu desprendimento atraíram sobre si a atenção dos que com ele privaram, tanto em Sanfins do Douro como em Braga, cidade para a qual se retirou em 1877, para evitar conflitos com um moleiro vizinho que, de acordo com o biógrafo, ameaçava matá-lo.

E foi na cidade dos arcebispos que o “Santo Moleiro” viria a falecer a 3 de abril de 1879. Se a vida simples de Sebastião Exposto da Roda de Vila Real, como se pode ler no assento de óbito, pouco ou nada terá de transcendente, já os factos ocorridos após a sua morte, perfeitamente documentados, são realmente extraordinários. Vejamos alguns:

Conhecido o seu passamento, ocorrido na enfermaria S. Cosme e Damião, logo um grande número de pessoas se começou a concentrar junto ao hospital S. Marcos, sendo necessário o destacamento de doze polícias para controlar a multidão que não mais arredou pé, acompanhando o féretro até ao cemitério. Aqui chegados, os restos mortais de Sebastião Maria estiveram noventa e cinco horas expostos à veneração e curiosidade de milhares de pessoas que lhe quiseram prestar uma última homenagem, oferecendo flores e lançando sobre o corpo pequeninos papeizinhos coloridos.

Depois de sepultado no jazigo da família Gomes Salsa, aí se conservou até dezembro de 1844, ano em que foi trasladado para Sanfins do Douro, onde chegou na noite de 17 desse mês. O corpo de Sebastião Maria foi transportado, desde a estação de comboio do Pinhão, por uma junta de bois que, à chegada, num episódio por todos considerado milagroso, se dirigiu para a casa da família, sendo gorados todos os esforços de a conduzir para a igreja, onde tudo estava preparado para o receber.

Numa sala desta casa, entretanto arranjada para o efeito, o corpo do “Servinho” esteve exposto à veneração dos seus fiéis até ao dia 14 de fevereiro de 1885, data em que, concluídas as obras na capela de Nossa Senhora da Piedade com esse fim, foi transportado para a ermida, para o local onde ainda se encontra.

Contra esta permanência de quase dois meses se pronunciou e protestou a imprensa liberal, sobretudo o jornal “A Juventude”, tentando por todos os meios acabar com o que considerava um escândalo e, do alto da sua superioridade intelectual, achincalhar os sanfinenses e todos aqueles que não partilhavam as suas ideias. A edição de 18 de janeiro de 1885 proclamava: “Tem estado à exposição em Sanfins um cadáver mumificado de um santo dali, e que morreu há seis anos em Braga com honras de santo.

O número de fiéis a visitar o santo é espantoso, e prodigiosos os seus feitos, pois repentinamente dá vista aos cegos e saúde aos doentes. O milagre de maior alcance que nos dizem fazer, é pôr a bolsa leve ao Zé ignorante para andar mais… ligeiro. Os povos de Sanfins não precisavam doutra filoxera.”

Este mesmo jornal, no dia 1 de fevereiro seguinte, voltou à carga, agora ainda mais agressivo: “Quem suporia que no século 19, século das luzes, um cadáver mumificado havia de render à família em poucos dias 3:000$000?! Quem diria que as autoridades civis haviam de tolerar semelhante especulação; sendo necessário para ela cessar haver reclamação do poder eclesiástico?… Quanto pode ainda a superstição na gente ignorante que vê santidade aonde a ciência vê uma coisa natural. Que bom parente que até depois de morto com as suas graças e milagres quasi enriquece a família. ”

Com a chegada de Sebastião Maria à ermida, tudo ali se altera e parece ganhar uma vida nova, tornando-se inclusivamente necessário criar um lugar de ermitão que atendesse os devotos de Sebastião Maria e recebesse as suas ofertas e erigir uma Sala de Promessas que registasse os milagres que lhe fossem atribuídos e guardasse os ex-votos que, em agradecimento, os miraculados quisessem oferecer.

E foi de tal ordem o entusiasmo à volta do novo santo que até o insuspeito, pelo que já se disse e ainda se verá, jornal “A Juventude”, na sua edição de 22 de março constata: “S. Lázaro. Na sua capelinha da rua dos Ferreiros está hoje à veneração dos fiéis este milagroso santo. É costume ser grande o n.º de devotos a visitá-lo, e avultada a colheita de esmolas; porém quando os tempos estão decadentes, e quando aparece em Sanfins o Sebastião moleiro, pseudo santo da moda, põe em retirada a voga a estes taumaturgos”.

Não parou com a trasladação dos restos mortais do “Santo Moleiro” para a ermida a sanha perseguidora de “A Juventude” e de outros jornais, como o “Correio de Alijó”: queriam que o corpo fosse enterrado no cemitério e fizeram o que podiam para o conseguir. Artigos inflamados, como o intitulado “Verdades Amargas”, do primeiro e, sobretudo, o artigo “O Santo”, publicado pelo segundo, irritaram profundamente os sanfinenses. Já fartos de tantas diatribes, na noite de 26 de fevereiro, 40 homens armados, idos de Sanfins do Douro, assaltaram a redação do “Correio de Alijó” com intenção de matar o diretor que, por sorte, se não encontrava nas instalações…

Em consequência deste assalto, a 8 de março, uma coluna constituída por 100 praças do Regimento de Infantaria 13, comandada pelo capitão Monteiro dirigiu-se a Sanfins para prender os responsáveis e fazer enterrar o “Servinho”, acabando de uma vez por todas com a insubordinação. Que se saiba, ninguém foi preso e, quanto ao enterro…

Independentemente de todos os acontecimentos mais ou menos maravilhosos ou atribulados da sua vida, a saga da sua trasladação de Braga, os ataques, a resistência dos sanfinenses às pressões são a prova de que as suas virtudes foram reconhecidas e de que também os pobres e os humildes podem ser santos.

Na Sala dos Milagres da ermida, lá estão, ainda hoje, os ex-votos, o caixão de madeira que o trouxe de Braga, ofertas diversas e, em frente à urna de vidro onde repousa, ramos de flores e estatuetas de cera que demonstram, tal como os ramos de noiva que lhe eram oferecidos no dia do casamento, que a memória de Sebastião Maria, o nosso “Servinho” ou o “Santo Moleiro”, continua viva nos tempos de hoje.

Eu, por mim, assim acredito!

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