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Testamento de D. João Martins, Cavaleiro de Mondego

A pedra tumular do Cavaleiro de Mondego (Favaios) é um precioso documento medieval, único no concelho e na região, que se encontra na Capela do Senhor do Andor, em Alijó. Porém, encontra-se totalmente tapado pela base de um andor. Certamente que o património do concelho merece mais atenção.

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Manuel Carlos Figueiredo

Natural de Favaios. Historiador

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A fixação humana em Mondego deve remontar a época pré-romana, sendo os seus primeiros habitantes oriundos, provavelmente, do castro próximo que se situava na serra do Vilarelho. O lugar reunia excelentes condições para ser habitado. Ficava num sítio alto, com um horizonte visual amplo, o que facilitava a defesa em caso de perigo, tinha abundância de água, fornecida pelo ribeiro que corria abaixo do local, e terrenos para a prática da agricultura e criação de gado.

Os romanos também se fixaram nas proximidades, na quinta de S. Jorge, onde fundaram uma villa agrária. Por certo que a abundância de água fornecida pelo ribeiro de Mondego e os terrenos adjacentes para a prática da agricultura determinaram a escolha desse local para aí se fixarem.

Fragmento de pedra sepulcral com inscrição funerária de D. João Martins

Na parede exterior da igreja desta quinta encontra-se encaixada uma estela funerária romana, lendo-se no texto: “Consagrado aos deuses manes. Flaccilla, Flaccina e Materna mandaram erigir a expensas próprias à mãe, ao pai e ao irmão (falecido) com 18 anos (Almeida e Plácido, 1983)”. Caso a estela funerária não tenha sido deslocada, confirma a existência de uma villa romana no lugar.

Os autores da interpretação desta estela dizem que os rendimentos das três irmãs advinham muito possivelmente da actividade agrícola que já norteava a região na época romana, o que atesta a escolha do local.

Mas a primeira informação escrita que menciona o topónimo Mondego encontra-se na Carta de foro de Soutelinho, concedida a quatro povoadores em 30 de Abril de 1255, no reinado de D. Afonso III: “Damus uobis, pernominatos homines et uxores lestras, hereditatem domini Regis, quomodo incipit per Petra Stante, que stat inter Mondeigo et Sancto Felice…” (Parente 2013, Vol. I, 473-475).

A riqueza agrícola do lugar atraiu igualmente a nobreza. A sua presença é confirmada pelo testamento que nos foi legado D. João Martins, um elemento da pequena nobreza local, que se intitulava a si próprio Cavaleiro de Mondego.

O testamento encontra-se numa inscrição gravada num fragmento de pedra sepulcral que “…fazia parte do túmulo, erecto na Igreja românica de São Jorge, onde se encontrava, na actual Quinta de S. Jorge; fazia parte do Túmulo do Cavaleiro de Mondego, sito na capela-mor da dita igreja, em arco aberto na parede norte (Leitão 1969, 26-27)”.

Igreja da Quinta de S. Jorge

Na Idade Média a igreja da Quinta de S. Jorge foi matriz da freguesia de Favaios. O fragmento de pedra sepulcral está actualmente na Capela do Senhor do Andor, em Alijó, tendo sido doado pelo senhor Raul dos Santos Ribeiro de Sampaio, daquela quinta 1.

Abaixo do fragmento de pedra sepulcral encontra-se um texto emoldurado, no qual se presta informação sobre a doação bem como a interpretação da inscrição, que é igual à que foi publicada na Ilustração Transmontana.

Com efeito, a imagem da inscrição tumular e a respectiva interpretação foi publicada por Arião (1908, 71-72) na Ilustração Transmontana, em 1898:
João Martins Cavalleiro de Mondego que este jazigo mandou fazer e mandou ahi deitar seu corpo e mandou ao que ficar com o seu haver depois da sua morte que lhe mantenha um capelão que cante por elle e por aquelles a quem é tudo para sempre: não-n-o cumprindo fique a cada um do povo qu’e possa cumprir assim como é contheudo em seu testamento, era de 1137 annos.

Leite de Vasconcelos diz que tendo estado em 1883, em Favaios, teve oportunidade de copiar a inscrição e a sua cópia difere bastante da referida na Ilustração referida.

Transcreve-se a leitura da inscrição na pedra sepulcral apresentada por aquele autor (1909):

J Martiz Cavaleiro de M
ondego : q este : iazigoo :
mandov : fazer : e mandov :
i : deitar : sev corpo : e: mandov
ao : q ficar: c seu : av: depois : sa
morte : q le mantenha : hu : ca
pela : q : cante : po el e po aq
eles a q e tvdo : pa senpe : nõ no
cõpidoo fiq a cada fv de sev
linage posa cõpi asi como e cõ
tevdo no svn testamento e de
mil tzetos de
….ños : ….

Leite de Vasconcelos (1909) questiona se ao J da inscrição corresponde João e expõe a sua interpretação, sem alterar nada de essencial:
(Está aqui sepultado) João Martins, cavalleiro de Mondego, que este jazigoo mandou fazer; e mandou i deitar seu corpo. E mandou ao que ficar cõ seu haver, depois sa morte, que l(h)e mantenha hu capella que cante, por el e por aquelles a que (ou a quê) é tudo, p´ra sempre; nõ no cõprido, fique a cada hu do seu lin(h)age pos(s)a cõprir, as(s)i como é cõteudo no seu testamento. Era de mil trezetos ..anos..

As duas interpretações são muito semelhantes e a principal diferença encontra-se na data mencionada no fim do texto.

Na publicação da Ilustração Transmontana, o autor refere “era de 1137 annos”. Sendo esta era a de César 2 a inscrição remonta ao ano 1099, século XI.

Mas Leite de Vasconcelos diz: “Se o número que se omitte adiante de trezetos é inferior a 38, o texto pertence ao século XIII, pois é sabido que a era de César (a do texto) excede a de Christo aquelle número de anos (1909)”.

Nestes termos, de acordo com a interpretação publicada na Ilustração Transmontana o texto pertence ao século XI, enquanto para Leite de Vasconcelos é do século XIII. A interpretação de Leite de Vasconcelos seria mais fiável, dado o trabalho que desenvolveu no campo da Epigrafia.
A data do documento é esclarecida por Mário Barroca (2000, Vol. II, Tomo 2, 1525), que apresenta a seguinte leitura:
IOham MARTInZ : CAVALEIRO : DE [m] / ONDEGO : Que ESTE IAZI-GOO : / MANDOU : FAZER : E : MANDOU : /1 : DEITAR : SEU CORPO : E : MANDOU / AO : Que FICAR : Com SEU (h)AV(er) DEPOIR [Sic] : SA / MORTE : Que : LE MANTENHA : HUm : CA / PELAm : Que : CANTE : Por ELE Por AQ(u) / ELLES A QuEm TUDO PerA SENPrE NOn NO / COmPrIDOO FIQue A CADA HUm DO SEU / LINAGEm POS(s)A COmPrlr AS(s)I COMO E COn / TEUDO NO SUA [Sic] TESTAMENTO Era DE / MIL E T(re)ZE(n)TOS E LX TA V / [a]NnOS

Este autor (2000, Vol. II, Tomo 2, 1526). diz que a leitura de Leite de Vasconcelos tem as seguintes divergências relativamente à sua proposta: na linha 5 leu “DEPOIS” quando foi gravado, certamente por lapso, DEPOIR, na linha 11 “SUN” em vez de SUA e na data, linhas 12-13, leu apenas “MIL E TZETOS/ …NOS:…” tendo progredido nesta passagem: “MIL E TZETOS E LX TA V / [a]NnOS:
Esclarece que a leitura de Leite de Vasconcelos é quase correcta, dadas as características deste epitáfio “que o tornam um dos mais ingratos de ler” entre todos os que conhece para a Idade Média portuguesa.

Seja como for, destaca-se uma grande diferença na leitura da inscrição sepulcral apresentada por este autor na data ao ler “MIL E TZETOS E LX TA V / [a]NnOS:”, avançando relativamente a Leite de Vasconcelos que tinha lido apenas “MIL E TZETOS/ …NOS:…”.
O avanço na leitura da data apresentado por Mário Barroca representa um grande contributo para a interpretação da pedra sepulcral de D. João Martins. Confirma a proposta de Leite de Vasconcelos quando lê “MIL E TZETOS/ …NOS:…”, adiantando uma data mais precisa relativamente à versão publicada na Ilustração Transmontana que referia “era de 1137 annos”.

Esclarece a dúvida que Leite de Vasconcelos tinha colocado sobre o número que se omitia “adiante de trezetos”. Fez a leitura completa da data, “MIL E TZETOS E LX TA V / [a]NnOS:”, que na era cristã corresponde ao ano 1327, ficando esclarecido que o documento pertence ao século XIV em vez do século XI, segundo a primeira interpretação publicada no século XIX na Ilustração Transmontana e que tem sido amplamente divulgada.

Desta forma, o epitáfio remonta ao início do reinado de D. Afonso IV, o Bravo. Curiosamente, o ano de 1327 é uma referência para o desenrolar do filme O Nome da Rosa, que decorre numa abadia medieval. É baseado no romance homónimo, um dos maiores sucessos literários do século XX, do escritor, professor e filósofo italiano Umberto Eco.

Mário Barroca (2000, Vol. II, Tomo 2, 1526) fornece mais elementos sobre a inscrição funerária de D. João Martins. Diz que é um “curiosíssimo exemplar no que respeita à sua paleografia” e deve ter sido elaborado por um artífice local, “pouco familiarizado com as técnicas epigráficas”.

A criação de uma inscrição compreendia três fases distintas. 1ª fase: a redacção do texto, em letra comum e sobre suporte não-rígido; 2ª fase – ordinatio: a marcação das letras no suporte e a sua paginação; 3ª fase: gravação das letras, com martelo e cinzel. Esta fase começava com a regularização da superfície da pedra (Barroca 2000, Vol. I, 107-108).

A maioria das inscrições era criada de acordo com uma ordinatio, mas existem casos que elaboravam a inscrição desrespeitando as regras desta fase. De entre os exemplos que constituem o seu inventário, Mário Barroca menciona o epitáfio do Cavaleiro de Mondego, um caso tardio, de 1327, “…onde encontramos a mais radical negação de qualquer ordinatio, e onde nem sequer a superfície do suporte foi devidamente regularizada. (2000, Vol. I, 116)”. Mas diz que este exemplo “… acaba por ganhar alguma notoriedade pela ausência de qualidade que patenteia e que traduz o afastamento de Trás-os-Montes dos meios criadores de epígrafes (2000, Vol. I, 116)”. Acrescenta que o autor do epitáfio de D. João Martins não tinha qualquer experiência das técnicas epigráficas.

Mário Barroca diz que a biografia de D. João Martins é muito mal caracterizada. Conhece-se apenas um dado documental, quando em 3 de Janeiro de 1327 doou à Sé de Braga, na pessoa do seu arcebispo D. Gonçalo Pereira, os direitos de Padroado 3 que detinha em várias Igrejas de Trás-os-Montes Ocidental, concentradas na zona das Terras de Chaves, Panóias e Aguiar da Pena.

A lista de Igrejas apresenta um número relativamente elevado, sendo mencionadas Tresminas (Vila Pouca de Aguiar), Vilarinho (Macedo de Cavaleiros? Alijó? ou Chaves?), Sanfins (Valpaços?), Stª. Maria de Outeiro e S. Clemente, Arminde, Macedo de Cavaleiros, Olmos (Macedo de Cavaleiros), Calvão (Chaves), Vilar de Perdizes (Montalegre), Requeixo, Medeiros (lugar da freg. de Chãs?, Montalegre) e Vilaça (lugar da freg. de Coutim, Montalegre). O autor esclarece que não conseguiu identificar o concelho a que pertencem as Igrejas de Arminde, Requeixo e Stª. Maria de Outeiro e S. Clemente (2000, Vol. II, Tomo 2, 1527).

O número elevado de Igrejas das quais D. João Martins era padroeiro, evidencia que este membro da nobreza tinha influência numa área vasta, dispersa pelas Terras de Panóias, Chaves e Aguiar da Pena.

O ano em que D. João Martins faz a doação à Sé de Braga coincide com o que se encontra gravado no seu epitáfio. Provavelmente encontrar-se-ia doente e previa que o seu tempo de vida seria curto. No âmbito da mentalidade medieval fez uma doação generosa à Igreja para ter uma “boa morte”, salvar a sua alma e garantir a vida eterna. Quanto maior fosse a doação mais orações e missas seriam feitas na Terra em sua memória.

A pedra tumular do Cavaleiro de Mondego (Favaios) é um precioso documento medieval, único no concelho e na região, que se encontra na Capela do Senhor do Andor, em Alijó. Porém, encontra-se totalmente tapado pela base de um andor. Certamente que o património do concelho merece mais atenção.

Bibliografia
Almeida, Carlos A. Brochado e Plácido, Manuel Alves. “A Estela Funerária Romana da Quinta de S. Jorge, Favaios – Alijó.” Arqueologia, n.º 7. Porto, 1983. 48-51.
Arião, F. S. Sampaio. “Favaios.” Ilustração Transmontana, 1908: 60-64, 71-72.
Barroca, Mário Jorge. Epigrafia Medieval Portuguesa (862-1422). 3 vols. Porto: Fundação Calouste Gulbenkian Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2000.
Carvalho, José Luís, coordenação de. Monografia de Favaios. Vila Real, 1991.
Leitão, Fernando Rodrigues. Subsídios Psicossociológicos e Históricos do Concelho de Alijó. Luanda, 1969.
Matoso, José, direcção de. História de Portugal. 8 vols. Círculo de Leitores, 1994.
Medina, João, direcção de. História de Portugal. 15 vols. Alfragide, Amadora: Clube Internacional do Livro.
Parente, João. A Idade Média no Distrito de Vila Real. 4 vols. Vila Real: Âncora Editora, 2013.
Serrão, Joel, direcção de. Dicionário de História de Portugal. 6 vols. Iniciativas Editoriais, 1975.
Vasconcellos, José Leite de. “Inscripção portuguesa antiga.” Arqueólogo Português – 1ª. Série. Vol. XIV. Lisboa, 1909. 49-50.
Viterbo, Joaquim de Santa Rosa de. Elucidario das palavras, termos, e frases, que em Portugal antiguamente se usaram . Vol. II. 2 vols. Lisboa: 2ª edição: A. J. Fernandes Lopes, 1865.

Notas:

  1. Nasceu em 25 de Agosto de 1871 em Sanradela, Vilar de Maçada e faleceu em 22 de Agosto de 1929, em Favaios. Casou, em 3 de Setembro de 1892, com Francisca Júlia Correia de Castro Sepúlveda (nasceu em 13.09.1872 na Quinta da Arufe, Rebordainhos, Bragança e faleceu em 07.12.1918, em Favaios) da Quinta de S. Jorge.
  2. Desde o século V que na Península Ibérica se utilizou a era Hispânica ou de César, cujo primeiro ano correspondia ao ano 38 a. C., quando foi concluída a conquista da Hispânia pelos romanos. No ano 1460 da era de César, ou 1422 da era Cristã, uma Carta Régia de Dom João I, de 22 de Agosto de 1422, determinou que se passasse a usar o ano de nascimento de Cristo.
  3. O direito de padroado baseava-se no facto de a igreja ou o mosteiro terem sido fundados ou dotados por determinada pessoa, o que dava ao doador a possibilidade de obter vantagens económicas, que podia transmitir aos seus sucessores. O padroeiro beneficiava de determinadas prerrogativas, como: podiam aposentar-se nas igrejas e mosteiros do seu padroado tendo aposentadoria e comedoria gratuita, indicar ao superior eclesiástico o pároco quando o lugar vagava, certas contribuições em géneros e dinheiro. (Castro, Armando de. Padroados. Vol. IV, em Dicionário de História de Portugal, Direcção: Joel Serrão. Iniciativas Editoriais, 1975).
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