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Tradição e alguns mitos da arrematação do andor de Nossa Senhora da Piedade

Algumas reações à minha recente intervenção num programa televisivo sobre o valor cultural dos andores em Portugal deixaram claro que, mesmo em Sanfins do Douro, há muita gente que não tem uma noção muito clara da importância da tradição da arrematação do andor de Nossa Senhora da Piedade e continua a alimentar alguns mitos que me proponho, com este apontamento, corrigir.

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Joaquim Grácio

Natural de Sanfins do Douro. Professor e escritor

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Algumas reações à minha recente intervenção num programa televisivo sobre o valor cultural dos andores em Portugal deixaram claro que, mesmo em Sanfins do Douro, há muita gente que não tem uma noção muito clara da importância da tradição da arrematação do andor de Nossa Senhora da Piedade e continua a alimentar alguns mitos que me proponho, com este apontamento, corrigir.

Antes disso, no entanto, convém realçar que, desde praticamente a origem da Romaria, iniciada em 1809, como demonstro no livro que será brevemente lançado e que tem por título “Romaria de Nossa Senhora da Piedade – 200 anos de Esplendor e de Abundância”, os sanfinenses sempre consideraram uma honra transportar aos ombros a imagem daquela que escolheram como padroeira: Nossa Senhora da Piedade!

E como a honra, tal como a dignidade não é – não deveria ser… – algo que se receba como herança ou por doação mas um bem que se conquista, desde cedo, de forma simbólica, pretenderam demonstrar isso mesmo com um gesto que, repetido e atualizado em cada ano, acabou por se transformar num dos símbolos da própria Romaria: pagar para carregar o andor, sentir o prazer e a dor da honra conquistada.

Um dos grandes mitos da arrematação do andor de Nossa Senhora da Piedade é o de que apenas com o surgimento do Grupo Novo, em 1981, houve uma verdadeira arrematação e que, até então, o que havia era um arremedo de leilão em que os licitantes, todos pertencentes ao mesmo grupo, sabiam antecipadamente do montante final e se tratava, por conseguinte, de uma mera encenação.

Como em quase tudo na vida, as meias verdades não deixam de ser meias mentiras e, portanto, vamos lá precisar: até 1947, não existem quaisquer documentos escritos ou testemunhos orais que nos possam ajudar. Em 1947 existia, no entanto, um grupo de homens, já na ordem dos quarenta e tal cinquenta anos, denominado o Grupo da Palha que, desde há anos, transportava o andor de Nossa Senhora da Piedade, na época um andor de madeira, raso, que era ornamentado com panos de cetim e flores artificiais, feitas em papel.

Alguns dos filhos dos componentes deste grupo e os seus amigos, a partir desse ano, começaram a disputar o transporte do andor, que, no ano seguinte, foi arrematado por novecentos escudos, uma verdadeira fortuna para a época. 1947 marca, assim, o surgimento do atual Grupo Velho. Este despique, muito renhido porque disputado em ambiente familiar, prolongou-se até 1950, ano em que o Grupo da Palha se integrou no grupo seu opositor.

Outro mito que se divulgou é o de que, até ao aparecimento do Grupo Novo, em 1981, o Grupo Velho transportava o andor por tuta e meia. É falsa e, até, muito injusta esta afirmação: o grupo era relativamente pouco numeroso e, como é lógico, os montantes estavam longe dos atuais. O espírito da honra, da paixão e do dever cumprido que irmanava os elementos do grupo, alguns dos quais conheci muito bem, não os deixaria entrar por esse tipo de caminho. De resto, bastaria compulsar as verbas das sucessivas arrematações para, com as devidas atualizações, corrigir este mito.

Um outro argumento a favor do que afirmo é o aparecimento, em 1952, do novo andor, um belo exemplar de talha doirada, executado na Casa Fânzeres, em Braga, por quinze mil, setecentos e trinta escudos! Este andor entusiasmou os sanfinenses e muitos mais elementos se associaram ao grupo, fazendo subir os valores da arrematação, esta sim, simbólica, que se haveria de manter até 1981.

O surgimento do Grupo Novo contribuiu, na realidade, para o grande salto que se tem verificado nos montantes da arrematação. A rivalidade entre os grupos, às vezes demasiado aguerridos, ultrapassou as fronteiras de Sanfins do Douro, estendeu-se às terras vizinhas e transformou-se num fenómeno a que a comunicação social tem dado o devido realce.

O terceiro e último mito é o de que o Grupo Velho é formado pelos mais idosos e o Grupo Novo pelos mais jovens. Nada mais falso: ambos os grupos possuem entre os seus elementos gente mais nova e gente menos nova. Há até, sobretudo entre os emigrantes que, no fundo, sentem que apenas poderão matar a saudade da terra e dos seus e reforçar os seus laços de pertença à sua comunidade de origem se, na Romaria, pegarem no andor da padroeira, contribuem para os dois grupos, única forma de terem a certeza que, mais uma vez, terão a honra de transportar aos ombros a imagem de Nossa Senhora da Piedade.

Se, com este texto, agucei a curiosidade de algum dos leitores, já sabem: no próximo dia 12 de agosto, domingo, pelas 10 horas da manhã, dirija-se a Sanfins do Douro e assista à arrematação do Andor de Nossa Senhora da Piedade. Se sentir qualquer coisa que o comova, pode colaborar e contribuir com o seu donativo para qualquer dos grupos. Se não estiver para aí virado, fique com a certeza, mesmo assim, de que acabou de assistir a uma dos eventos mais incomuns das romarias de Portugal.

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